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terça-feira, 22 de março de 2016

Estudo dos verbos - III



(Continuação da obra "Gramática da Língua Portuguesa",
de Pasquale & Ulisses)



Capítulo 8
Estudo dos verbos - III

Depois de estudar detidamente os mecanismos de conjugação e os principais verbos irregulares e defectivos, você vai investigar o funcionamento dos modos e tempos verbais no uso efetivo, ou seja, nas frases e textos de nossa língua. Nosso objetivo é fazer você refletir sobre o valor e o significado das diferentes formas verbais, tornando-o apto a empregá-las com precisão e sensibilidade. No texto acima, por exemplo, o verbo encontra-se no modo indicativo, empregado quando se dá como certo, real ou verdadeiro o conteúdo daquilo que se declara.

1. OS MODOS VERBAIS

Em português, existem três modos verbais: o indicativo, o subjuntivo e o imperativo.

O modo indicativo é empregado quando se dá como certo, real ou verdadeiro o conteúdo daquilo que se fala ou escreve:
Faz muito calor nesta época do ano.
Fez muito calor no último verão.
O serviço meteorológico informa que fará muito calor neste verão.

O modo subjuntivo é empregado quando se dá como provável, duvidoso ou hipotético o conteúdo daquilo que se fala ou escreve:
Talvez faça muito calor neste verão.
Se fizesse calor nestes dias, a safra estaria perdida.

O modo imperativo é empregado para exprimir ordem, pedido, súplica, conselho: "Cala a boca, Bárbara!"
"Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa..."
"Socorram-me!
"Vai e diz a ela as minhas penas."

De um modo geral, podem-se relacionar os modos verbais a três atitudes diferentes de quem fala ou escreve: o indicativo mostra uma atitude mais objetiva diante dos fatos e processos, que são apresentados como fenômenos positivos e independentes; o subjuntivo traduz a expressão de conteúdos emocionais (o desejo, a dúvida, a incerteza), impregnando os fatos e processos com a subjetividade de quem fala ou escreve; o imperativo procura impor o processo verbal ao interlocutor, com a intenção de que este aja de acordo com aquilo que o emissor da mensagem pretende.

2. OS TEMPOS VERBAIS

OS TEMPOS DO INDICATIVO

PRESENTE

As gramáticas costumam definir o presente do indicativo como o "tempo que indica processos verbais que se desenvolvem simultaneamente ao momento em que se fala ou escreve":
Estou em São Paulo.
Não confio nele.

Na verdade, o presente do indicativo vai muito além. Pode também expressar processos  habituais, regulares, ou aquilo que tem validade permanente:
Tomo banho diariamente.
Durmo pouco.
Todos os cidadãos são iguais perante a lei.
A Terra gira em torno do Sol.

O presente do indicativo pode ser empregado para narrar fatos passados, conferindo- lhes atualidade. É o chamado presente histórico:
No dia 17 de dezembro de 1989, pela primeira vez em quase trinta anos, o povo brasileiro elege diretamente o presidente da República.
Iludida pelos meios de comunicação, a população não percebe que está diante de um farsante.
Mas a verdade não demora a chegar.
O presidente-atleta logo mostra quem é.
Seu braço direito, PC Farias, saqueia o país.
Forma-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que investiga as atividades ilícitas da dupla. Em alguns meses, os escândalos apurados são tantos que só resta ao aventureiro renunciar.

O presente também pode ser usado para indicar um fato futuro próximo e de realização tida como certa:
Daqui a pouco, a gente volta.
Embarco no próximo sábado.

Utilizado com valor imperativo, o presente constitui uma forma delicada e familiar de pedir ou ordenar alguma coisa:
Artur; agora você se comporta direitinho.
Depois vocês resolvem esse problema para mim.

PRETÉRITO IMPERFEITO

O pretérito imperfeito tem várias aplicações. Pode transmitir uma idéia de continuidade, de processo que no passado era constante ou freqüente:
Estavam todos muito satisfeitos com o desempenho da equipe.
Entre os índios, as mulheres plantavam e colhiam; os homens caçavam e pescavam.
Naquela época, eu almoçava lá todos os dias.

Ao nos transportarmos mentalmente para o passado e procurarmos falar do que então era presente, também empregamos o pretérito imperfeito do indicativo:
Eu admirava a paisagem.
A vida passava devagar. Quase nada se movia.
Uma pessoa aparecia aqui, um cão latia ali, mas, no geral, tudo era muito quieto.

O pretérito imperfeito é usado para exprimir o processo que estava em desenvolvimento quando da ocorrência de outro:
O Sol já despontava quando a escola entrou na passarela.
A torcida ainda acreditava no empate quando o time levou o segundo gol.

Usado no lugar do presente do indicativo, o pretérito imperfeito denota cortesia:
Queria pedir-lhe uma gentileza.

Pode substituir o futuro do pretérito, tanto na linguagem coloquial como na literária:
Se ele pudesse, largava tudo e ficava com ela.
"Se eu fosse você, eu voltava pra mim."

PRETÉRITO PERFEITO

O pretérito perfeito simples exprime os processos verbais concluídos e localizados num momento ou período definido do passado. Veja os exemplos:
Em 1983, o campeão brasileiro da Segunda Divisão foi o Juventus.
O concerto foi encerrado às vinte e três horas.
Os primeiros imigrantes italianos chegaram ao Brasil no século passado.

O pretérito perfeito composto exprime processos que se repetem ou prolongam até o presente:
Tenho visto coisas em que ninguém acredita.
Os professores não têm conseguido melhores condições de trabalho.

Atente para a distinção entre o pretérito imperfeito e o pretérito perfeito simples:
Quando o encontrava, ficávamos horas conversando.
Quando o encontrei, ficamos horas conversando.
Tinha certeza de que não seria aprovado.
Teve certeza de que não seria aprovado.

PRETÉRITO MAIS-QUE-PERFEITO

O pretérito mais-que-perfeito exprime um processo que ocorreu antes de outro processo passado:
Era tarde demais quando ela percebeu que ele se envenenara (ou: tinha/havia envenenado).

O fato de ele ter-se envenenado é anterior ao fato de ela ter percebido. 'Envenenara' é, por isso, mais-que-perfeito, ou seja, mais velho que o perfeito (percebeu).

Na linguagem do dia-a-dia, usa-se muito pouco a forma simples do pretérito mais-que-perfeito. É comum, entretanto, na linguagem formal e literária, bem como em algumas expressões cristalizadas ("Quem me dera!"; "Quisera eu").

Quando usado no lugar do futuro do pretérito do indicativo ou do pretérito imperfeito do subjuntivo, o mais-que-perfeito simples confere solenidade à expressão:
Compare com: "E, se mais mundo houvera, lá chegara." (Camões)
E, se mais mundo houvesse, lá chegaria.

FUTURO DO PRESENTE

O futuro do presente simples expressa basicamente processos tidos como certos ou prováveis, mas que ainda não se realizaram no momento em que se fala ou escreve:
Será realizada amanhã a partida decisiva.
Estarei lá no próximo ano.
Jamais a terei a meu lado.

Pode-se usar esse tempo com valor de imperativo, com tom enfático e categórico:
"Não furtarás!"
Você ficará aqui a noite toda.

Em outros casos, essa forma imperativa parece mais branda e sugere a necessidade de que se adote certa conduta:
Você compreenderá a minha atitude.
Pagarás quando puderes.

O futuro do presente simples também pode expressar dúvida ou incerteza em relação a fatos do presente:
Ela terá atualmente trinta e cinco anos.
Será Cristina quem está lá fora?

Quando expressa circunstância de condição, o futuro do presente se relaciona com o futuro do subjuntivo para indicar processos cuja realização é tida como possível:
Se tiver dinheiro, pagarei à vista.
Se houver pressão popular as reformas sociais virão.

O futuro do presente simples é muito pouco usado na linguagem cotidiana. Em seu lugar, é normal o emprego de locuções verbais com o infinitivo, principalmente as formadas pelo verbo ir:
Vou chegar daqui a pouco.
Estes processos vão ser analisados pelo promotor.

O futuro do presente composto expressa um fato ainda não realizado no momento presente, mas já passado em relação a outro fato futuro. Observe:
Quando estivermos lá, o dia já terá amanhecido.
Quando eu voltar ao trabalho, você já terá entrado em férias.

FUTURO DO PRETÉRITO

O futuro do pretérito simples expressa processos posteriores ao momento passado a que nos estamos referindo:
Ele não seria feliz ao lado dela.
Muito tempo depois, chegaria a sensação de fracasso.

Também se emprega esse tempo para expressar dúvida ou incerteza em relação a um fato passado:
Estariam lá mais de vinte mil pessoas.
Ela teria vinte anos quando gravou o primeiro disco.

Quando expressa circunstância de condição, o futuro do pretérito se relaciona com o pretérito imperfeito do subjuntivo para indicar processos tidos como de difícil concretização:
Se ele quisesse, tudo seria diferente.
Viveria em outro lugar se pudesse.

O futuro do pretérito composto expressa um processo encerrado posteriormente a uma época passada que mencionamos no presente:
Partiu-se do pressuposto de que às cinco horas da tarde o comício já teria sido encerrado.
Anunciou-se que no dia anterior o jogador já teria assinado contrato com o outro clube.

Esse tempo também expressa dúvida sobre fatos passados:
Teria sido ele o mentor da fraude?

Quando expressa circunstância de condição, o futuro do pretérito composto relaciona-se com o pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo, exprimindo processos hipotéticos ou de realização desejada, mas já impossível:
Se ele me tivesse procurado antes, eu o teria ajudado.
O país teria melhorado muito se tivessem sido feitos investimentos na educação e na saúde.

OS TEMPOS DO SUBJUNTIVO

PRESENTE

O presente do subjuntivo normalmente expressa processos hipotéticos, que muitas vezes estão ligados ao desejo, à suposição:
"Quero que tudo vá para o inferno!"
Suponho que ela esteja em Roma.
Caso você vá lá, não deixe que o explorem.
Talvez ela esteja aqui amanhã.
Ficam excluídos os que não amam a cultura.

PRETÉRITO IMPERFEITO [do subjuntivo]

O pretérito imperfeito do subjuntivo expressa processos de limites imprecisos, anteriores ao momento em que se fala ou escreve:
Fizesse sol ou chovesse, não dispensava uma volta no parque.
Os baixos salários que o pai e a mãe ganhavam não permitiam que ele estudasse.

O pretérito imperfeito do subjuntivo é o tempo que se associa ao futuro do pretérito do indicativo quando se expressa circunstância de condição ou concessão:
Se ele fosse politizado, não votaria naquele farsante.
Embora se esforçasse, não conseguiria a simpatia dos colegas.

"Se fosse seu carro, você já teria trocado". Neste caso de correlação com o futuro do pretérito do indicativo (teria), o pretérito imperfeito do subjuntivo (fosse) expressa circunstância de condição. Também se relaciona com os pretéritos perfeito e imperfeito do indicativo:
Sugeri-lhe que não vendesse a casa.
Esperava-se que todos aderissem à causa.

PRETÉRITO IMPERFEITO [do subjuntivo]

Só ocorre na forma composta e expressa processos anteriores tidos como concluídos no momento em que se fala ou escreve:
Imagino que ela já tenha procurado uma solução.

PRETÉRITO MAIS-QUE-PERFEITO [do subjuntivo]

Também só ocorre na forma composta. Expressa um processo anterior a outro processo já passado:
Esperei que tivesse exposto completamente sua tese para contrapor meus argumentos.

Esse tempo pode associar-se ao futuro do pretérito simples ou composto do indicativo quando são expressos fatos irreais e hipotéticos do passado:
Se me tivesse apresentado na data combinada, já seria funcionário da empresa.
Mesmo que ela o tivesse procurado, ele não a teria recebido.

FUTURO [do subjuntivo]

Na forma simples, indica fatos possíveis, mas ainda não concretizados no momento em que se fala ou escreve:
Quando comprovar sua situação, será inscrito.
Quem obtiver o primeiro prêmio receberá bolsa integral.
Se ela for a Siena, não quererá mais sair de lá.

Esse tempo normalmente se associa ao futuro do presente do indicativo quando se expressa circunstância de condição:
Se fizer o regime, emagrecerá rapidamente.

O futuro do subjuntivo composto expressa um processo futuro que estará terminado antes de outro, também futuro:
Quando tiverem concluído os estudos, receberão o diploma.
Iremos embora depois que ela tiver adormecido.

3. VALOR E EMPREGO DAS FORMAS NOMINAIS

O verbo apresenta três formas nominais: o infinitivo, o gerúndio e o particípio. Você já sabe que essas formas são chamadas nominais porque podem ter comportamento de nomes (substantivos, adjetivos e advérbios) em certas situações.

O INFINITIVO

O infinitivo apresenta o processo verbal em si mesmo, sem nenhuma noção de tempo ou modo. É a forma utilizada para nomear os verbos:
É proibido conversar com o motorista.
Estudar é um direito de qualquer cidadão.
Quero ver você daqui a dez anos.

É normal a transformação do infinitivo em substantivo pelo uso de um determinante:
"Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver."

Quando usado como substantivo, o infinitivo pode apresentar flexão de número:
São muitos os falares brasileiros.

Em português, o infinitivo pode ser pessoal ou impessoal. Quando se emprega o pessoal, o processo verbal é relacionado a algum ser:
Perguntei-lhe se havia algo para eu ler.

Com o impessoal, o processo verbal não é restrito a um ser em particular:
Ler é obrigação de qualquer cidadão.

No primeiro exemplo, pode-se notar que o infinitivo ler se refere ao mesmo ser a que se refere a forma perguntei: eu. No segundo exemplo, não há qualquer referência desse tipo: trata-se do processo verbal considerado em si mesmo.

O infinitivo pessoal pode flexionar-se para concordar em número e pessoa com o ser a que se refere:
Ela deseja saber se há algo para lermos.

Essa flexão pode ocorrer até mesmo em situações em que o infinitivo tenha papel nominal:
O comparecermos atrasados será tomado como menoscabo.

Em sua forma composta, o infinitivo tem valor de passado, indicando um processo já concluído no momento em que se fala ou escreve:
Ter trabalhado duro permitiu-nos belas viagens à Itália.

O PARTICÍPIO

O particípio é a forma nominal que tem, simultaneamente, características de verbo e de adjetivo. Sua natureza verbal se manifesta nas locuções verbais, nos tempos compostos e em orações reduzidas:
A casa será desocupada até terça-feira.
Não existe nada que possa ser comprovado.
Se ele me tivesse avisado, teria conseguido resolver a situação.
Terminada a festa, o abatimento tomará conta de todos.
Calado num canto, ele nos observava atentamente.

Observe que nas duas últimas frases o particípio pode apresentar um processo completo anterior a outro (o abatimento tomará conta de todos após o término da festa) ou um processo que é simultâneo a outro (ele estava calado enquanto nos observava).

O particípio assume função de adjetivo quando caracteriza substantivos:
Tem comportamento destacado no dia-a-dia do Congresso.
Tem atuação destacada no dia-a-dia do Congresso.

O GERÚNDIO

Além da natureza verbal, o gerúndio pode desempenhar função de advérbio e de adjetivo. Atua como verbo nas locuções verbais e orações reduzidas. Indica normalmente um processo em curso ou prolongado:
Estou ouvindo o disco que você me deu.
Está estudando para melhorar profissionalmente.

Sua característica de advérbio pode ser percebida em frases em que indica circunstância de modo:
Gritando muito, ela chamava pelo pai.

O uso do gerúndio com valor de adjetivo é menos comum. Ocorre quando se liga a um substantivo, caracterizando-o:
"Eu vi o menino correndo
eu vi o tempo correndo
ao redor do caminho daquele menino."
(Caetano Veloso)

A forma composta do gerúndio tem valor de pretérito e indica processo já concluído no momento em que se fala ou escreve:
Tendo feito, por telefone, várias reclamações que não foram atendidas, resolvi ir pessoalmente à Administração Regional.

4. AS LOCUÇÕES VERBAIS

As formas nominais dos verbos são muito utilizadas na formação das locuções verbais ou perífrases verbais, conjuntos de verbos que, numa frase, desempenham papel equivalente ao de um verbo único.

Nessas locuções, o último verbo, chamado principal, sempre é empregado numa de suas formas nominais; as flexões de tempo, modo, número e pessoa se dão nos verbos auxiliares:
Nenhum aluno poderá sair antes do término da prova.
Está havendo uma profunda transformação na sociedade.
É provável que ele seja convocado para a Copa.
Começou a gritar sem nenhuma explicação.
Lembra de quando você começou a pedalar?

Locução verbal: começou a pedalar. Verbo principal (pedalar) no infinitivo; as inflexões ocorrem no verbo auxiliar (começou).

Nossa língua apresenta uma grande variedade dessas locuções, que exprimem os mais variados "tons" de significado. Os auxiliares ter e haver são empregados na formação dos chamados tempos compostos, dos quais já falamos detalhadamente. Ser (estar, em algumas construções) é usado nas locuções verbais que exprimem a voz passiva analítica do verbo, da qual também já falamos. Poder e dever são auxiliares que exprimem a potencialidade ou a necessidade de que determinado processo se realize ou não. Observe:
Pode ocorrer algo surpreendente durante o jogo.
Deve ocorrer algo surpreendente durante o jogo.
Eles podem estudar. Eles devem estudar.

A esses dois, podemos acrescentar querer, que exprime vontade, desejo:
Quero ver um novo país.

Outros auxiliares largamente usados são: começar a, deixar de, voltar a, continuar a, pôr-se a; ir, vir e estar; todos ligados à noção de aspecto verbal, que estudaremos a seguir.

5. ASPECTO VERBAL

Já sabemos que os verbos são capazes de transmitir informações relacionadas ao modo, ao tempo, ao número, à pessoa e à voz. Uma outra informação que os verbos conseguem transmitir diz respeito ao aspecto, ou seja, à duração do processo verbal.

Durante o estudo do valor e do emprego dos tempos verbais, você pôde perceber as diferenças entre o pretérito perfeito e o pretérito imperfeito do indicativo: o primeiro indica processos concluídos e localizados num momento ou período do passado; o segundo, processos verbais cujos limites imprecisos sugerem que estavam em desenvolvimento. Na verdade, a diferença básica entre esses tempos é de aspecto, conceito que se liga à duração do processo verbal: Quando o encontrei, saudei-o. O aspecto é perfeito, porque o processo está concluído. Quando o encontrava, saudava-o. O aspecto é imperfeito, porque o processo não tem limites claros, prolongando-se no passado por período impreciso de tempo.

Se você voltar às considerações feitas sobre o valor dos tempos verbais, vai notar que essa informação sobre a duração do processo verbal não é restrita aos pretéritos perfeito e imperfeito do indicativo, mas também está presente em outros tempos. O presente do indicativo e o presente do subjuntivo, por exemplo, apresentam aspecto imperfeito, pois não impõem limites precisos ao processo verbal:
Tomo banho todos os dias.
Espera-se que ele tome banho todos os dias.

Já o pretérito mais-que-perfeito, como o próprio nome indica, apresenta aspecto perfeito em suas formas do indicativo e do subjuntivo, pois traduz processos já concluídos e anteriores a outros, também já concluídos:
Quando chegamos lá, encontramos a mensagem que o andarilho deixara (ou: tinha/havia deixado) uma semana antes.
Se tivesse acordado antes, teria conseguido fazer o exame.

Outra informação aspectual que a oposição entre perfeito e imperfeito pode fornecer diz respeito à localização do processo no tempo. Os tempos perfeitos podem ser usados para exprimir processos localizados num ponto preciso do tempo:
No instante em que o vi, chamei-o.
Tinha-o saudado assim que o vira.

Já os tempos imperfeitos podem indicar processos freqüentes e repetidos:
Sempre que viajava, fazia detalhada revisão no carro.

O aspecto permite a indicação de outros detalhes relacionados com a duração do processo verbal. Observe as frases a seguir:
Tenho tido dissabores em meu trabalho.

Esse tempo, conhecido como pretérito perfeito composto do indicativo, indica um processo repetido ou freqüente, que se prolonga até o presente.

Estou trabalhando.
A forma composta pelo auxiliar estar seguido do gerúndio do verbo principal indica um processo que se prolonga. É largamente empregada na linguagem cotidiana, não só no presente, mas também em outros tempos (estava trabalhando, estive trabalhando, estarei trabalhando, etc.). Em Portugal, costuma-se utilizar o infinitivo precedido da preposição a em lugar do gerúndio (estou a trabalhar).

Tudo estará resolvido quando ele chegar. Tudo estaria resolvido quando ele chegasse.
As formas compostas “estará resolvido” e “estaria resolvido”, conhecidas como futuro do presente e futuro do pretérito compostos do indicativo, exprimem processo concluído - é a idéia do aspecto perfeito que já conhecemos - ao qual se acrescenta a noção de que os efeitos produzidos permanecem uma vez realizada a ação.

Os animais noturnos terminaram de se recolher mal começou a raiar o dia.
Nas duas locuções destacadas, mais duas noções ligadas ao aspecto verbal: a indicação do término e do início do processo verbal.

Eles vinham chegando à proporção que nós íamos saindo.
As locuções formadas com os auxiliares vir e ir exprimem processos que se prolongam.

Ele voltou a trabalhar depois de deixar de sonhar projetos irrealizáveis.
As locuções destacadas exprimem o reinício de um processo interrompido e a interrupção de outro, respectivamente.

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