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sábado, 23 de abril de 2016

A Filosofia Aristotélica e a política brasileira

Artigo de Wallece José S. Lima
‘’As idéias precedem os canhões’’
Pe. Leonel Franca, SJ

Hoje falaremos um pouco sobre a filosofia aristotélica e como ela pode nos auxiliar em nossa realidade política brasileira. Aristóteles é, por direito, o fundador do modelo ocidental de racionalidade, junto a Sócrates e Platão, caracterizado pela busca metafísica do ser. O filósofo de Estagira, além de inaugurar várias ciências clássicas, ter criado a primeira classificação das ciências e da poética e, de certo modo, a própria metafísica do ser e do ente, deixou-nos outro legado inestimável: o seu método científico e filosófico composto pelo silogismo, a dialética e pelo método indutivo-dedutivo, ferramentas insubstituíveis e elementares a qualquer atividade científica. Assim, o modelo de racionalidade ocidental é aristotélico à medida que o ocidente é devedor não só do sistema orgânico do Filósofo, mas principalmente de seu método; não há nenhum método científico, político ou metafísico criado depois de Aristóteles que não tenha influência direta do estagirita. Mesmo a tentativa de certos filósofos modernos de negar todo o edifício teórico construído por Aristóteles, ignorando a existência da metafísica, a validade da lógica, dos limites da ciência definidos pelo filósofo e negando a própria natureza da moralidade, nenhum filósofo moderno ou contemporâneo jamais conseguiu fazer filosofia lançando mão do método aristotélico.
Nossa exposição não será ortodoxa e, portanto, não se pautará em nenhum manual de filosofia aristotélica em específico. Também não trataremos especificamente da filosofia política de Aristóteles. Nossa intenção é somente fornecer uma visão geral dos princípios aristotélicos e demonstrar como eles podem nos ajudar com os problemas políticos cotidianos que enfrentamos no Brasil. Como de costume, não deixarei de fornecer algumas referências bibliográficas que nortearam este estudo sobre o tema proposto: Progresso e Religião, de Christopher Dawson, A crise do mundo moderno, de Padre Leonel Franca; A barbárie, de Michel Henry; O século do nada, de Gustavo Corção; O Comunismo no Brasil de Ferdinando de Carvalho; A nova ciência da política, de Eric Voegelin;Filosofia da Crise, de Mário Ferreira dos Santos, História do liberalismo brasileiro O socialismo brasileiro, de Antônio Paim; além dos Comentários à metafísica e à política de Aristóteles de Santo Tomás de Aquino, Aristóteles em Nova Perspectiva, os manuais clássicos de filosofia: Tratado de Filosofia: Metafísica do Régis Jolivet, Introdução à filosofia, de Maritain, História da Filosofia de Giovanni Reale e Dario Antiseri e Noções de História da Filosofia, de Leonel Franca e os próprios livros de Aristóteles: Metafísica, Ética a Nicômaco e Política.

PARA UMA ‘’CONSCIÊNCIA DA CRISE’’
Antes de falarmos sobre Aristóteles, é obviamente necessário contextualizarmos o problema proposto, esboçando o quadro geral da política brasileira e ocidental. O mundo ocidental, de modo geral, vive ainda sob os ditames da mentalidade moderna, quer dizer, todo o senso de orientação que a sociedade contemporânea possui, seja na política, na filosofia ou na moral, foi dado pela modernidade e dela ainda não nos desvencilhamos – salvo as preciosas e raras exceções, claro. Vivemos de acordo com a regra moderna, eis o dado elementar. Há, é verdade, uma corrente filosófica que hoje ostenta a condição de ter transgredido a modernidade e passado à condição de pós-modernidade. Não cabe aqui aprofundar-nos no mérito da questão, mas a idéia mesma de uma pós-modernidade, se é que ela existe, é ainda mentalidade moderna. Os vários autores ditos pós-modernos convergem quanto às principais características da pós-modernidade: a) a recusa em conceituar ou definir o que quer que seja em nome de exacerbado e deturpado ideal de ‘’mundo aberto’’ e b) dar à subjetividade o único critério de certeza da realidade. Óbvio que não é preciso dizer que a ‘’condição pós-moderna’’ é, no mínimo, esquizofrênica, pois ao mesmo tempo em que negam a validade de qualquer conceituação, tomam como ponto de partida, a definição ‘’clara e distinta’’ de um tempo histórico como norma de conduta e senso de orientação da própria existência. Além do mais, a subjetividade pós-moderna já era um ponto de partida da própria filosofia moderna, de Descartes a Hegel. Assim, mesmo que haja uma pós-modernidade, seus pressupostos ainda são modernos.
Mas o que queremos dizer exatamente quando falamos em mentalidade moderna?  Das várias características da modernidade que hoje influenciam nossa vida, as principais são, em primeiro lugar, a visão imanentista e revolucionária da teleologia humana, que já falamos em outra ocasião, o antropocentrismo oriundo da dúvida universal e, principalmente, o rompimento com a tradição cultural e espiritual do período medieval. As investigações filosóficas e propostas políticas realizadas pelos ‘’iluministas’’ partiram do assustador e enigmático pressuposto que não houve nada de significante antes na história; ignoraram os avanços políticos da idade média, erigiram sistemas filosóficos sem sequer mencionar os avanços escolásticos e pretenderam criar edifícios teóricos como se o Século das Luzes fosse o verdadeiro início da cultura humana.
Do antropocentrismo moderno e da imanentização gnóstica das obras (para usarmos a linguagem voegeliana), que vimos em outra oportunidade, surgiram teorias éticas que tomam o homem como mera relação com as realidades materiais. O dogma da liberdade como finalidade em si mesma, decretado pela Revolução Francesa, somado com a exaltação do indivíduo pela propaganda contratualista (que criou esta noção de indivíduo substituindo a concepção cristã de pessoa), deu início ao liberalismo moral e econômico, criando uma ruptura entre a nascente elite burguesa iluminista e a classe servidora – ruptura esta que chegara às raias do total afastamento entre ambas as classes, rompendo de vez com o sistema social católico que assegurava relativa proteção (mais eficaz que o modelo moderno, ao menos) aos membros das classes inferiores da pirâmide social.
Por outro lado, a idéia contratualista não lançou as bases somente do liberalismo de Adam Smith, Mill, Malthus e David Ricardo. A ruptura criada por Locke, Hobbes e Rousseau, entre o indivíduo tomado ‘’individualmente’’ e do indivíduo inserido no meio social, deu margens também ao levante do social contra o indivíduo, início das teorias socialistas. A distinção entre indivíduo e sociedade tem também outra raiz, que é a separação maquiavélica (em todos os sentidos) entre ética e moral, paradigma (para usar uma linguagem contemporânea) da ação política contemporânea. A separação entre ética e moral é símbolo da distinção entre aquilo que se faz particularmente e aquilo que se faz publicamente, a ruptura entre este ‘’eu individual’’ e o ‘’eu social’’; o homem moderno não vê nenhuma contradição e assumir publicamente ações ou discursos diferentes de seu credo pessoal ou familiar. A ruptura aberta entre as ações particulares e as decisões políticas contribuiu para o surgimento do relativismo moral. Mas não apenas o liberalismo e o socialismo são os filhos da modernidade. Por intermédio da distinção entre natureza e cultura operada por David Hume ao negar o valor cognoscível da metafísica e potencializada por Kant e Hegel, surge também a falsa concepção moderna de conservadorismo, que toma a posição conservadora não como práxis, relação do sujeito com a cosmovisão, mas como teoria, sistema político dotado de princípios, tornando-o, paradoxalmente, objeto de ação política.  Assim, temos a visão geral da política moderna e como ela ainda dita os rumos da discussão ideológica no ocidente.
Contudo, ao estabelecermos uma relação deste quadro geral que acabamos de apresentar com a realidade brasileira, não podemos nos furtar de levar em conta um dado importante: na França, Itália, Inglaterra e Alemanha, o advento da modernidade foi, digamos, amortecido pelo período de transição comumente chamado Renascimento. O período renascentista abriu a passagem para a modernidade não apenas culturalmente, mas espiritualmente, com o progressivo afastamento das relações materiais com o Sagrado, reservando somente à fé a relação com o sacro, o que culminou no surgimento do protestantismo. Porém, à medida que os países citados desvencilhavam-se da Idade Média, a União Ibérica (centro econômico europeu da época) dava ao mundo os seus maiores frutos na filosofia escolástica e na arte barroca; Portugal, Espanha e, conseqüentemente, os países colonizados por ambos, incluindo o Brasil, não viveram o Renascimento com a mesma força que a Itália, França e Alemanha, por exemplo. Assim, quando o Brasil recebeu a notícia da Revolução Francesa, ponta-pé da modernidade, nosso país ainda era espiritualmente barroco.
O dogmático lema libertèÉgalitè e fraternitè, tal como na França, encantou somente a oligarquia agrária brasileira e os universitários idealistas, que vislumbraram na ação revolucionária da insurgente burguesia francesa (também tirana e oligárquica), um modelo de tomada do poder político em nosso país. Não é preciso dizer o quão grande foi o choque cultural que sofremos no Brasil. Do dia para noite, a Terra de Santa Cruz foi arremessada no olho do furacão da modernidade: importamos, pelas mãos de uma elite econômica sedenta de poder, os ‘’avanços’’ do Século das Luzes: a revolta contra a Coroa trazia consigo o peso simbólico da luta do burguês contra o rei, do positivismo contra o barroco, da ditadura contra a autoridade, da revolução contra a ordem natural e da ciência gnóstica contra o Sagrado. Toda a revolta iluminista, no Brasil, passou ao largo do conhecimento e da vontade popular (que soube post factum da novidade da República), agravando o afastamento da participação popular nas decisões políticas. O choque do iluminismo no Brasil foi tão violento, espiritualmente falando, quanto nos países europeus pois aqui não tivemos o renascimento, que deu ao surgimento da modernidade a falsa sensação de um fluxo natural e harmonioso da história.
Claro que uma mudança tão abrupta em uma cultura não é assimilada facilmente pela população interiorana. Até mesmo intelectuais comunistas, como Labriola e Gramsci, perceberam que o processo de mudança da mentalidade de uma cultura leva tempo, e no Brasil não foi diferente. Podemos dizer que culturalmente, os brasileiros começaram a assimilar a mentalidade moderna somente no século XX, com a novidade do positivismo– novidade aqui, pois já era velho conhecido na Europa e cujos frutos amargos já floresciam por lá. Assim, somente no início do século XX, como nos diz Evaristo de Moraes Filho, que os movimentos comunistas brasileiros começaram a se articular. Apenas no século XX surgiram os grandes intelectuais de esquerda no Brasil como Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos, Leandro Konder e Caio Prado Júnior. Embora a revolução republicana no Brasil tenha sido embalada pelos ideais liberais e tenha conhecido no século XIX intelectuais liberais como Hipólito da Costa e Silvestre Pinheiro Ferreira, foi também no século XX que despontaram os primeiros grandes nomes do liberalismo que pretendiam colocar o Brasil em diálogo com as correntes liberais européias de até então, como Gilberto de Mello Kujawski, Antônio Paim e, sobretudo, José Guilherme Merquior. O mesmo com o conservadorismo brasileiro: mesmo nosso país tendo, no final do século XIX, os grandes Eduardo Prado e Joaquim Nabuco, é também no século XX surgiram os grandes nomes do conservadorismo brasileiro, como Oliveira Viana, João Camilo de Oliveira Torres e o esquecido Carlos Lacerda. Em suma, se por um lado, o processo de abandono do Brasil barroco por parte da elite burguesa pragmática e revolucionária foi assustadoramente rápido, o processo da formação intelectual capaz de dialogar com esse novo momento do Brasil e do mundo, foi extremamente tardio.
A tudo que foi dito acima, soma-se ainda o fato da complexa trama que foi a articulação comunista no Brasil em prol da tomada do poder, que contou com a influência da própria URSS, e cuja força obrigou o povo brasileiro amargar a terceira ditadura (segunda militar) em sua curta e amarga vida republicana. O regime militar, como sabemos, desarticulou a direita ainda em formação, censurando conservadores e liberais, contudo, foi incapaz de impedir o crescimento do comunismo no plano cultural e burocrático, que apoderou-se não só dos cargos de liderança das instituições estatais, mas tornou hegemônica, ao modo gramscista, a cosmovisão comunista em diversas áreas da sociedade. Com o desastroso processo de redemocratização, os comunistas assumiram (sem nenhuma resistência por parte dos conservadores e liberais, desarticulados por forças externas e internas) formalmente todo oestablishment que já detinham ‘’clandestinamente’’ desde 1964, desequilibrando ainda mais o ‘’jogo esquerda-e-direita’’, que já nascera vicioso.
Assim, com o lado direito da política moderna fora de campo, a ala esquerda assumiu o poder sem maiores contratempos. Mas como é nos tempos críticos que surgem os grandes sábios, recentemente, com o agravamento da crise, surgiram jornalistas liberais e conservadores, ensaístas e filósofos, que despertaram a consciência dos brasileiros para os desmandos do comunismo, resgatando a consciência de uma direita, perdida nos ‘’porões’’ da história brasileira.  No que tange à formação espiritual e intelectual de nossa nação, muita coisa se perdeu ou foi deturpada nestes tempos de hegemonia socialista e, assim, a tomada de consciência da (limitada) função histórica da direita em nosso país ainda está em processo de formação. Hoje, embora haja uma guinada à direita, como dissemos em outras oportunidades, sua formação é ainda defasada, pois seus adeptos tomam-na como representante de uma tradição espiritual e intelectual que, como acabamos de ver, não é real. Direita (seja liberal ou conservadora) é uma idéia tão moderna quanto a noção de esquerda.  É este, de modo bastante resumido, o quadro geral da situação política em nosso país: uma esquerda estabilizada e detentora da hegemonia (ao menos legal) das instituições brasileiras e uma direita galgando seus primeiros passos, ambas, peças de um mesmo jogo revolucionário.
Nossa intenção, nas linhas que se seguem, não é estabelecer um caminho rígido e determinista, ao modo kantiano, para as futuras ações políticas dos ditos representantes de um pensamento de direita, mas voltarmo-nos a um dos pais da cultura ocidental (cuja atualidade é irrefutável) e ouvir o que ele tem a nos aconselhar nesta nova fase da história brasileira. Nossa intenção é somente apontar certos princípios do pensamento do velho Aristóteles (elementares ao estudo da filosofia) que devem ser levados em consideração sempre que tratamos de qualquer assunto político que pretenda ser apresentado como um discurso científico, evitando assim uma abordagem excessivamente abstrata da filosofia política. Não faremos uma abordagem exaustiva de todos os elementos do pensamento aristotélico, mas apenas aqueles que sigam o seguinte critério: 1) os princípios universais e necessários da filosofia aristotélica e que, ao mesmo tempo, 2) estejam dentro dos limites da capacidade de explanação do autor do presente artigo. Portanto, evitaremos falar sobre os princípios metafísicos mais complexos da filosofia aristotélica como o hilemorfismo, a distinção entre forma e matéria, a definição de essência, a abstração, intuição sensível etc. Assim, estas breves (e pobres, bem sabemos) linhas são muito mais um convite a Aristóteles que qualquer outra coisa.
ENFIM, ARISTÓTELES
‘’Não há nada que esteja em nosso intelecto que não tenha passado antes por nossos sentidos’’. Eis um dos pontos fundamentais da filosofia aristotélica. Aristóteles nos ensinou que o filosofar não parte de idéias abstratas ou problemas prontos, mas sim, da realidade concreta. E ‘’concreto’’, conforme ensinou-nos Mário Ferreira dos Santos, não significa aqui realidades meramente empíricas, físicas, mas a realidade como um todo, em todos os seus elementos; dos átomos aos princípios metafísicos mais necessários e universais. Esta é a essência da filosofia aristotélica: o esforço de demonstrar a unidade da esfera metafísica com a esfera física da realidade, de modo que aquilo que acontece no mundo ‘’sublunar’’ está ligado às leis metafísicas e que as leis metafísicas (necessárias e universais), realizam-se no indivíduo – não como cópia de um eidos em sentido platônico, mas por analogia, por estar inserido na mesma realidade dos princípios metafísicos.
Conscientes do pressuposto de que a realidade (objetiva, independente de nós) é a medida do pensamento, torna-se claro que toda filosofia ou ciência política deve partir, como dizia José Pedro Galvão de Sousa, de ‘’homens concretos tomados em sua realidade histórica’’. A política não parte de ideologias com fórmulas pré-estabelecidas que pretenda justificar o passado e o presente com base em um futuro ideal de mundo perfeito e nem dos princípios – se é que existem – da esquerda ou da direita, do progresso ou da conservação. Nada disso. A política é a consciência dos problemas reais das pessoas reais em suas vidas reais. E nada mais óbvio, caso ela ainda seja a ciência da Pólis, a ciência cujo objeto é o bem comum, tento como medida, o Sumo Bem. Soluções abstratas não são capazes de resolver as tensões da realidade, somente ações concretas, fundamentadas em princípios metafísicos sólidos, têm esta capacidade. As teorias políticas (como liberalismo, conservadorismo etc) servem como um ponto de apoio, um referencial à medida que puderem resolver algum problema da realidade, previamente conhecido mediante o método lógico-dialético, desenvolvido pelo Filósofo. E é o bom uso destes pontos de apoio que gostaríamos de fundamentar através dos princípios aristotélicos que trataremos logo a seguir.
Podemos dizer que a filosofia aristotélica é a filosofia da coragem: se a realidade contradiz o pensamento de Aristóteles, pior para Aristóteles. Ao contrário, para as ideologias modernas, imersas em uma mentalidade kantianamente abstrata, se a realidade contradiz o pensamento, pior para a realidade; uma ideologia nunca erra. E como fazer uma política livre dos ranços unilaterais e abstratos dos ideólogos? Para respondermos a esta pergunta, basta olharmos para os princípios metafísicos, lógicos e cosmológicos descobertos por Aristóteles, que fundamentam a realidade – que exporemos abaixo.

  1. Ser 
O ser é o ponto de partida de qualquer filosofia que pretenda dizer algo sobre a realidade. É a máxima determinação do real: tudo o que é, é, ou seja, tem ser, tem aquilo que faz com que algo seja aquilo que é e não outra coisa e contém a natureza das coisas, seus limites e tudo o que elas podem realizar. Como o ser humano tem acesso aos princípios metafísicos por intermédio das realidades particulares, é necessário que o ser de cada coisa realize-se na própria coisa.  Todos nós sabemos que existe o ser humano, mas não o vemos por aí, pois somente homens individuais realizam aquilo que é o ser humano. E como conhecemos o ser das coisas? Através do agir. É o agir que diz o que o ser é. É daqui que devemos partir uma análise política: do agir, levar em conta não o discurso de um político ou a justificação de uma ideologia, mas aquilo que faz uma proposta política ser aquilo que ela é, suas ações efetivas. Se for verdade que em política comumente se diz que não vale o que se diz, mas o que se faz, isso se dá porque há este princípio metafísico: o ser se conhece pelo agir. Não à toa que Aristóteles, em sua classificação das ciências, designa a Política como uma ciência prática e arquitetônica.

  1. Categorias: Substância e Acidente
Aristóteles, ao fundamentar os princípios da lógica, classificou a realidade em dez categorias, espécie de ‘’catálogos’’ que nós podemos utilizar para classificar uma realidade quando a vimos. Substância, composto de matéria e forma, é o ser do ente, ou seja, a ‘’essência com suas propriedades e acidentes contingentes’’, aquilo que dá a subsistência ao indivíduo, composto pela matéria que ele é feito e da forma que dá o ser. Ou seja, a substância é a realidade básica, fundamental do ente. Analisando a realidade, porém, podemos notar que nem tudo existe em si mesmo (por exemplo, a cor, a cegueira…), mas existem coisas que existem em outras e que, mesmo existindo em outro ser, não o define. Ora, estas coisas que existem em si mesmas, Aristóteles dá o nome de substâncias e as coisas que existem em outras, Aristóteles dá o nome de acidentes, que são as duas grandes categorias. Os acidentes desdobram-se em nove tipos: quantidade, qualidade, tempo, espaço, lugar, hábito, relação, posição e paixão.
Em política, esta distinção lógica feita por Aristóteles tem um valor inestimável, pois hoje dificilmente se faz esta separação em um discurso ou manifesto político; não conseguimos mais distinguir aquilo que é essencial ao discurso daquilo que é meramente acidental. Nos nossos dias, urge retomarmos esta distinção, pois as ideologias nem sempre partem de pressupostos mentirosos, mas no mais das vezes, partem de pressupostos verdadeiros e são inseridos no discurso ideológico de forma mentirosa: o problema marxista do proletariado é real, mas não é essencial ao marxismo e sim apenas veículo de propaganda; o problema não é o dado em si, mas a relação dele com o discurso, ou seja, qual a real importância deste dado para o discurso. É fundamental ou meramente retórico? Qual a relação deste mesmo dado com os outros discursos políticos? Se for uma questão fundamental de uma teoria política, as propostas desta teoria para a solução do problema são aplicáveis à realidade? Negar a validade do discurso não significa de modo algum negar a validade do problema. Hoje, por incapacidade de distinguirmos estas categorias, tomamos todo o discurso político como radicalmente verdadeiro ou radicalmente mentiroso, negando ou afirmando todo o conjunto, sem distinção dos elementos.

  1. Ato e Potência
O Ser é, diz a natureza das coisas. Mas nem tudo que o ser é, se faz presente o tempo todo, quer dizer, nem todas as características do ser estão efetivadas no ente. Na esfera das contingências, nenhum ser tem em ato tudo o que ele pode ser. Algumas características do ser só podem ser desenvolvidas pelo hábito. A estas possibilidades  não realizadas, Aristóteles dá o nome de potência. O ato é aquilo que o ser é efetivamente e potência, aquilo que ele pode vir a ser. Por exemplo: o autor do presente artigo, por ser humano, tem a potência de tornar-se um bom estudante de filosofia, mesmo que ainda não seja. Este princípio cosmológico pode nos ajudar a apreender, de um discurso ou ação política, aquilo que ela já fez e aquilo que pode fazer ou não pode fazer, afinal, existem potências que podem ser atualizadas, potências virtuais (que estão em virtude de tornar-se ato) e potências meramente hipotéticas, não realizáveis. Esta é também uma distinção fundamental do pensamento do estagirita.
Como afirma Santo Tomás de Aquino, o limite do ato é dado pelo limite da potência. Ou seja, os limites daquilo que um ser pode atualizar é dado pelas potências que são da natureza do próprio ser: um homem não pode voar, pois não tem a potência de voar, ou um gato não late porque não tem a potência de latir. A natureza do ser diz aquilo que ele pode ou não pode atualizar, ou seja, uma proposta política só atualiza aquilo que seu discurso tem potência de efetivar. O que se promete fora do conjunto de possibilidades de uma idéia política, das duas uma: ou não pertence àquilo que foi proposto ou é meramente jogo retórico.

  1. Teoria das quatro causas
Causa final, formal, material e eficiente. É também um princípio cosmológico fundamental para a atividade política. Conhecer as reais causas que movem uma ação política. Não adianta atermo-nos a um fenômeno ou acontecimento isolado, mas sim a tudo que está atrelado: o que esta ideologia pretende alcançar? (causa final), para que? (causa formal), o que utiliza para fazer isso? (causa material), quem ou o que faz? (eficiente). Sem as perguntas sobre as causas, é impossível aderirmos a qualquer idéia econômica, filosófica, política ou ideológica que seja.
Aliás, Aristóteles já dizia: saber é conhecer pelas causas. Sem o conhecimento das causas de uma proposta política, tudo o que temos são fenômenos vazios de sentido e nossas adesões a qualquer proposta que serão meramente administrativas ou burocráticas. Sem a ciência dos porquês, nossas especulações não terão finalidade alguma e jamais conseguiremos erigir uma forma legítima de desarticular aqueles que se declararam abertamente inimigos do povo brasileiros e inimigos da fé.

CONCLUSÃO
O texto que o leitor tem diante de si é paradoxal: partimos de uma crítica ao caráter moderno do jogo esquerda-e-direita e pretendendo demonstrar como falsa é qualquer tentativa dos adeptos da direita de apresentarem-se como herdeiros de alguma tradição intelectual ou espiritual, terminamos nossa exposição apresentando certos princípios da filosofia aristotélica com a intenção bem ordenar e estipular limites ontológicos e históricos das ideologias liberais e conservadoras. Embora paradoxal, nossa exposição não é contraditória: se política e filosofia devem partir das coisas reais, os dados fundamentais para uma filosofia da política brasileira são: o conhecimento dos problemas efetivos que a nossa sociedade enfrenta e a consciência das idéias políticas presentes com mais força na intelectualidade do brasileiro. Nossa posição não foi de negação ou de adesão à direita em si mesma, mas uma interpretação do papel ontológico e histórico que lhe cabe. Nossa motivação é a esperança de que a consciência do limite (no sentido de que limite indica a natureza das coisas) da função da direita no Brasil sirva para desvencilharmo-nos dos vícios que carregam as ideológicas, sejam elas quais forem.
Também não pretendemos dar uma visão exaustiva da filosofia aristotélica. Pelo contrário, sabemos que há muitas questões fundamentais sobre a realidade brasileira que devem ser levadas em consideração, além dos vários princípios da filosofia de Aristóteles que contém aplicações precisas à política brasileira e que não citamos neste breve texto (principalmente as considerações feitas pelo filósofo na Ética a Nicômaco e na Política). Tudo isso sem falar que a relação dos problemas sociais concretos com a aplicabilidade de alguma proposta política em específico (adequada aos princípios da metafísica, que são os princípios da realidade mesma), deve ser submetida ao rigoroso exame lógico-dialético criado pelo Filósofo. Assim, nosso trabalho neste breve artigo foi apenas inicial: um aceno a um primeiro passo daquilo que se espera de uma análise mais objetiva de nossa realidade política.
Também devemos salientar que a política é uma ciência prática e, enquanto tal requer virtude, que é fundamental e sem a qual a atividade política torna-se vazia e meramente burocrática e administrativa. Sem virtude, a ciência dos princípios é inútil, pois, como sabemos, uma ação política pode ser formalmente verdadeira, mas ilegítima se a vontade de quem a faz estiver corrompida ou se a causa final da ação for torpe; ‘’só o amor dá valor às obras’’, dizia Santa Tereza D’ávila. O que distingue o bom cientista político do mau cientista político é a presença ou a ausência de caridade naquilo que se escreve.
Como dissemos, este pequeno trabalho é um esforço de síntese do problema. Se for verdade que a filosofia nasce do espanto, do maravilhar-se ante a realidade, temos razões para crer que o primeiro passo para uma consciência da realidade política brasileira se dará pela consciência da crise e tudo o que ela abarca. A crise não significa apenas o fim. Pelo contrário: da crise origina-se tanto o fim quanto a superação. O aforismo nietzschiano ‘’o que não nos mata, nos fortalece’’ pode ser verdadeiro, se levarmos em consideração que ‘’fortaleza’’ é uma virtude cardeal e, enquanto tal é virtuosa se exercida em unidade com as demais virtudes cardeais. E unidade é um princípio metafísico do ser, como nos ensinou o grande Aristóteles.

(Fonte: http://santamariadasvitorias.org/a-filosofia-aristotelica-e-a-politica-brasileira/)

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