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sábado, 2 de abril de 2016

Algumas razões para ser um cientista - 4


(Continuação da obra "Algumas razões para ser um cientista")


Quebrando barreiras


Elisa Frota-Pessôa
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
Rio de Janeiro, RJ, Brasil

(Relato de Entrevista, por Carolina Cronemberger)



Quando nasceu, em janeiro de 1921, o futuro de uma mulher era provavelmente terminar o curso normal, casar e ter filhos. E isso era o que esperava o pai, advogado, para sua filha Elisa. Mas não foi bem essa a história da física Elisa Frota-Pessôa.

Nas primeiras aulas do ginasial seu professor de física, Plínio Sussekind da Rocha, depois de corrigir exercícios feitos em casa por ela, perguntou brincando se seu pai ou algum irmão mais velho gostava de Física; não imaginava que uma menina pudesse fazer aquele trabalho tão bem. Com o passar do tempo, porém, ele foi um dos maiores incentivadores para que ela continuasse seus estudos no curso de Física, e não no de Engenharia, como era de se esperar de alguém interessado em Física e Matemática. Era ele também quem lhe passava exercícios extras fora do horário das aulas.

Elisa atribui sua escolha, sem hesitação, da carreira de física aos seus professores da Escola Paulo de Frontin no Rio de Janeiro. Dúvidas sobre sua escolha ela diz nunca ter tido, mas, em compensação, não encontrou nenhum apoio na família. Ao contrário, seu pai era favorável a que sua filha mais velha se casasse e fosse uma boa dona de casa como a mãe era. No máximo, poderia continuar escrevendo suas poesias. Além dele, seu noivo na época também imaginava que quando eles se casassem terminaria aquela brincadeira. 

Naquele momento, todavia, a física já era muito mais importante do que os sonhos de 'boa moça'. Na verdade, era sua verdadeira paixão, aquela que a acompanharia por toda a vida. Nas reuniões de escola seus pais nunca voltavam falando dos feitos intelectuais, relatados por seus professores, mas sempre do problema da disciplina: “Eu era levada mesmo. Levada pra chuchu”, ela conta. Nada que a tenha atrapalhado a fazer grandes amizades e obter o respeito e carinho dos colegas e professores. Em seu caderno guarda belas declarações, sempre exaltando sua aguçada inteligência.

Um ano após terminar o curso na Escola Paulo de Frontin, Elisa se casou com seu professor de biologia, Oswaldo Frota-Pessôa, de quem adotou o sobrenome e com quem teve dois filhos. Quinze dias depois da festa, Elisa fez a prova de ingresso para o curso de Física da Faculdade Nacional de Filosofia, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi a única aprovada daquele ano! Meses depois juntou-se a ela seu amigo, José Leite Lopes, que se transferiu de Matemática para Física.

Durante a faculdade começou a trabalhar com o professor Joaquim Costa Ribeiro, de quem já era assistente Jayme Tiomno, seu grande companheiro no laboratório e que anos depois se tornou seu segundo e atual marido.

Costa Ribeiro era, como ela lembra, apesar de bastante cioso dos equipamentos, sempre pronto a discutir e explicar o que lhe fosse perguntado. Elisa conta que saía de suas aulas sempre com a sensação de não ter dúvidas. Suas explicações eram objetivas e tudo parecia muito claro, até chegar a hora de resolver problemas, então era necessário estudar mais ou voltar a ele para esclarecer.

“O que torna um professor interessante é dar certa liberdade aos alunos no sentido de deixá-los desenvolver sua criatividade, dar bastante exercícios e corrigi-los, fazer pesquisas e transmitir entusiasmo aos alunos”, diz ela. 

Em sua vida como pesquisadora e professora parece ter se guiado por essa máxima. Conta ela, que sempre tratou seus alunos como filhos. Sua proximidade com eles e as constantes visitas que ela e Tiomno recebiam deles em casa até tarde da noite, renderam-lhes, inclusive, horas de interrogatórios durante o governo militar. Queriam saber que tipo de “subversão” eles estavam ensinando àqueles meninos. Chegaram à conclusão que o assunto destes encontros era apenas ciência.

Sempre alegre, Elisa fala com entusiasmo de todas as suas conquistas pessoais e profissionais, e dos enormes desafios que enfrentou durante toda a vida para se firmar na carreira e cuidar da vida familiar, que ela garante foi saudável e feliz.

O sorriso só desaparece quando fala do que não gosta e às vezes acontece na profissão: falta de honestidade científica. E quando lembra do tempo que a recém fundada Universidade de Brasília, para onde levou muitos de seus alunos, não sobreviveu à falta de liberdade no governo militar. Neste período, 230 professores pediram demissão da noite para o dia. Período triste que ela prefere nem lembrar; prefere partir para falar de assuntos mais agradáveis, contar suas estórias, que são muitas, sobre Física e sobre físicos, sempre com um enorme sorriso e um espírito jovem e animado.

Seu entusiasmo é tão grande e contagiante, que quando sua irmã, seis anos mais nova, avisou que depois do ensino médio queria ser apenas dona de casa, seu pai então chamou Elisa e Oswaldo, seu marido na época, e pediu que conversassem com ela e a convencessem a escolher uma profissão. “Você me ensinou uma coisa: a mulher deve ter mesmo uma profissão”, disse ele a Elisa. Mais uma vez ela discordava dele, cada um deve fazer aquilo que vai lhe fazer mais feliz, ela pensava. Sua irmã se formou com ótimas notas em biologia, mas nunca exerceu a profissão.

Ela garante que tudo que se faz com paixão acaba dando certo. Mesmo que o retorno financeiro demore a chegar. “Vai pegando seu “onibuzinho” para o trabalho que um dia você consegue comprar seu carro, e assim vai conseguindo tudo”. Realmente, não dá pra deixar de acreditar nisso diante de Elisa Frota-Pessôa.

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