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quarta-feira, 13 de abril de 2016

As evidências da evolução (R. Dawkins) - 7


(Continuação da obra "As evidências da evolução",
de Richard Dawkins)


Capítulo 7
Pessoas perdidas? Foram encontradas!



O que Darwin disse a respeito da evolução humana em seu livro mais famoso, A origem das espécies, limita-se a doze auspiciosas palavras: "Uma luz será lançada sobre a origem do homem e sua história". Assim ele escreveu na primeira edição, a que sempre cito salvo menção em contrário. Na sexta (e última) edição, Darwin permitiu-se ir um pouco além, e a frase ficou assim: "Muita luz será lançada sobre a origem do homem e sua história". Gosto de imaginar sua caneta, pairando sobre a quinta edição, enquanto o grande homem judiciosamente ponderava se devia dar-se o luxo do "muita". Mesmo nessa segunda forma, a frase é calculadamente comedida.

Darwin decidiu deixar a abordagem do tema da evolução humana para um livro posterior, The descent of man [traduzido para o português com o título A origem do homem]. Talvez não surpreenda que os dois volumes dessa obra dediquem mais espaço ao assunto do subtítulo, "e a seleção sexual", (estudada sobretudo em aves), do que à evolução humana.

Não é de surpreender, porque na época em que Darwin escreveu não dispúnhamos de fósseis que nos ligassem a nossos parentes mais próximos entre os grandes primatas. Darwin só podia observar grandes primatas vivos, e fez deles muito bom uso, argumentando corretamente (e quase sozinho) que nossos parentes vivos mais próximos eram todos africanos (gorilas e chimpanzés - naquele tempo os bonobos não eram considerados separados dos chimpanzés, mas também eles são africanos). Assim, ele predisse que, se viessem a ser encontrados fósseis de ancestrais dos humanos, seria na África.

Darwin lamentou a escassez de fósseis, mas não se deixou intimidar por isso. Citando seu mentor Lyell, o mais eminente geólogo da época, Darwin ressaltou que "em todas as classes de vertebrados a descoberta de vestígios fósseis é um processo extremamente lento e fortuito", e acrescentou: "tampouco devemos esquecer que essas regiões com maior probabilidade de abrigar vestígios ligando o homem a alguma criatura extinta semelhante a um grande primata ainda não foram sondadas pelos geólogos".

Ele se referia à África, e a busca não foi ajudada pelo fato de que seus sucessores imediatos desconsideraram em grande medida as suas recomendações e foram procurar na Ásia. Pois foi mesmo na Ásia que pela primeira vez os "elos perdidos" começaram a parecer menos perdidos. Mas esses primeiros fósseis descobertos eram relativamente recentes, datados em menos de 1 milhão de anos, uma época em que os hominídeos eram bem próximos dos humanos modernos e haviam emigrado da África e chegado ao Extremo Oriente. Foram chamados "Homem de Java" e "Homem de Pequim" em alusão aos locais onde foram descobertos.

O Homem de Java foi descoberto pelo antropólogo holandês Eugene Dubois em 1891. Dubois batizou seu achado de Pithecanthropus erectus, indicando que julgava ter realizado a ambição de sua vida, encontrar o "elo perdido". Ele deparou com duas fontes opostas de discordância, o que não podia ser melhor para reforçar seu argumento: alguns disseram que seu fóssil era totalmente humano; outros, que se tratava de um gigantesco gibão.

Posteriormente em sua amargurada e intratável vida, Dubois ressentiu-se da suposição de que os fósseis de Pequim descobertos mais recentemente eram semelhantes ao seu Homem de Java. Ele, que era ferozmente possessivo, para não dizer protetor, de seu fóssil, achava que só o seu Homem de Java era o verdadeiro elo perdido. Para ressaltar a distinção com relação aos vários fósseis do Homem de Pequim, Dubois descreveu-os como muito mais próximos do homem moderno, e seu Homem de Java de Trinil como um intermediário entre homem e macaco. Escreveu:

"O Pitecanthropus [Homem de Java] não era um homem, e sim um gênero gigantesco aparentado dos gibões, porém superior a estes no aspecto do volume cerebral extraordinariamente grande e ao mesmo tempo distinto por sua faculdade de adotar postura e andar eretos. Possuía o dobro da cefalização [razão entre o tamanho do cérebro e o do corpo) dos símios antropoides em geral e metade da do homem. [...] Foi o surpreendente volume do cérebro — que é grande demais para um símio antropoide e pequeno se comparado ao cérebro humano médio, porém não menor que o menor cérebro humano — o responsável pela suposição agora quase generalizada de que o "Homem-Macaco" de Trinil, Java, era realmente um homem primitivo. Morfologicamente, porém, a calvária [cúpula do crânio] lembra acentuadamente a dos símios antropoides, especialmente o gibão."

A irritação de Dubois decerto não melhorou quando interpretaram suas palavras como significando que o Pithecanthropus era apenas um gibão gigante, e não um intermediário entre gibões e humanos. Ele se desdobrou para reafirmar sua posição anterior: "Ainda acredito, agora mais do que nunca, que o Pithecanthropus de Trinil é o verdadeiro 'elo perdido'".

Os criacionistas de quando em quando usam como arma política a alegação de que Dubois recuou de sua declaração de que o Pithecanthropus era um homem-macaco intermediário. Entretanto, a organização criacionista Answers in Genesis adicionou esse à sua lista de argumentos desacreditados que agora aconselha a não usar. É louvável que a entidade mantenha uma lista como essa.

Como já mencionei, hoje está demonstrado que os espécimes de Pithecanthropus de Java e Pequim são bem recentes, de menos de 1 milhão de anos atrás. Agora eles são classificados juntamente conosco no gênero Homo, conservando o nome específico dado por Dubois, erectus: Homo erectus.

Dubois escolheu a parte errada do mundo para sua obstinada busca do "elo perdido". Era natural para um holandês seguir primeiro para as índias Orientais Holandesas, mas um homem com a sua dedicação deveria ter seguido o conselho de Darwin e ido para a África — pois foi na África que nossos ancestrais evoluíram, como veremos.

Mas o que esses espécimes de Homo erectus estavam fazendo fora da África? A frase "fora da África" (out of Africa) foi tomada de empréstimo a Karen Blixen* para se referir ao grande êxodo dos nossos ancestrais da África. Mas houve dois êxodos, e é importante não confundi-los.

Há relativamente pouco tempo, talvez menos de 100 mil anos atrás, bandos errantes de Homo sapiens muito parecidos conosco deixaram a África e se diversificaram, originando todas as raças que hoje encontramos: inuítes, ameríndios, nativos australianos, chineses, etc. É a esse êxodo recente que normalmente se aplica o termo "saída da África". Mas houve um êxodo anterior da África, e esses erectus pioneiros deixaram fósseis na Ásia e na Europa, incluindo os espécimes de Java e Pequim.

O fóssil mais antigo conhecido fora da África foi encontrado na região centro-asiática da Geórgia e apelidado de "Homem Georgiano": uma diminuta criatura cujo crânio, bem preservado, foi datado por métodos modernos em aproximadamente 1,8 milhão de anos atrás. É chamado de Homo georgicus por alguns taxonomistas (embora outros não o reconheçam como espécie separada), para indicar que ele parece bem mais primitivo que o resto dos primeiros refugiados da África, que foram todos classificados como Homo erectus.

Alguns utensílios de pedra um pouco mais antigos que o Homem Georgiano foram descobertos há pouco tempo na Malásia, desencadeando uma nova busca por ossos fósseis nessa península. Seja como for, todos esses fósseis asiáticos iniciais são bem próximos dos humanos modernos e hoje são todos classificados no gênero Homo; para nossos antecedentes ainda mais antigos, devemos ir à África.

Primeiro, porém, façamos uma pausa para indagar o que deveríamos esperar de um "elo perdido". Suponhamos, para desenvolver nosso argumento, que levamos a sério o confuso significado original do termo "elo perdido", e procuremos um intermediário entre os chimpanzés e nós.

Não descendemos dos chimpanzés, mas bem fará quem apostar que o ancestral que temos em comum com eles era mais parecido com um chimpanzé do que com um humano. Em especial, ele não tinha um cérebro enorme como o nosso, provavelmente não andava aprumado como nós, era bem mais peludo e com certeza não possuía características humanas avançadas como a linguagem.

Assim, embora devamos inflexivelmente refutar o equívoco frequente de que descendemos de chimpanzés, não faz mal perguntar como seria um intermediário entre algo parecido com um chimpanzé e um humano.

Pelos e linguagem não se fossilizam bem, mas podemos obter boas pistas sobre o tamanho do cérebro a partir do crânio e boas pistas sobre o porte a partir de todo o esqueleto (incluindo o crânio, pois o forame magno, a cavidade onde o canal vertebral se liga à cavidade craniana, aponta para baixo nos bípedes e mais para trás nos quadrúpedes).

Possíveis candidatos a elo perdido poderiam ter quaisquer dos seguintes atributos:

1. Tamanho de cérebro e andar intermediários: talvez uma espécie de andar trôpego e curvado em vez do porte aprumado exigido por sargentos e professoras de etiqueta.

2. Tamanho do cérebro igual ao dos chimpanzés e porte ereto dos humanos.

3. Cérebro grande, mais parecido com o humano, e andar quadrúpede como o dos chimpanzés.

Assim, tendo em mente essas possibilidades, examinemos alguns dos numerosos fósseis africanos que hoje temos à disposição, mas infelizmente Darwin não teve.


AINDA ME DIVIRTO TORCENDO...

Evidências moleculares (das quais tratarei no capítulo 10) mostram que o ancestral que tivemos em comum com os chimpanzés viveu há cerca de 6 milhões de anos ou um pouco antes; procuremos então um meio-termo e examinemos alguns fósseis de 3 milhões de anos.

O mais famoso fóssil dessa safra é "Lucy", classificado por seu descobridor na Etiópia, Donald Johanson, como Australopithecus afarensis.

Infelizmente só temos fragmentos do crânio de Lucy, mas sua mandíbula está incomumente bem preservada. Ela era pequena pelos padrões modernos, embora não tão diminuta quanto o Homo floresiensis, a criaturinha que os jornais tratam pelo irritante apelido de "Hobbit", morta em uma época exasperantemente recente na ilha indonésia de Flores.

O esqueleto de Lucy é completo o suficiente para sugerir que ela andava ereta no chão, mas provavelmente também se refugiava em árvores, onde subia com agilidade. Há bons indícios de que todos os ossos atribuídos a Lucy realmente provêm de um único indivíduo. O mesmo não se aplica à chamada "Primeira família", uma coleção de ossos de no mínimo treze indivíduos, semelhantes a Lucy e aproximadamente da mesma safra, que, não se sabe como, foram sepultados juntos, também na Etiópia.

Os fragmentos de Lucy e da Primeira Família nos dão uma boa idéia de como era o Australopithecus afarensis, mas é difícil lazer uma reconstituição autenticamente completa com pedaços de muitos indivíduos diferentes. Felizmente, um crânio razoavelmente completo conhecido como AL 444-2 foi descoberto em 1922 na mesma área da Etiópia, confirmando as reconstituições provisórias que haviam sido feitas.

A conclusão dos estudos de Lucy e seus parentes é que eles tinham o cérebro de tamanho semelhante ao dos chimpanzés, mas, em contraste com estes, andavam eretos nas pernas traseiras, como nós — o segundo dos nossos três cenários hipotéticos. As "Lucys" pareciam-se um pouquinho com chimpanzés que andassem eretos.

Seu bipedalismo é eloquentemente confirmado pelo comovente conjunto de pegadas descoberto por Mary Leakey em cinza vulcânica fossilizada. Isso foi mais ao sul, em Laeotli, Tanzânia, e as pegadas são mais antigas do que Lucy e o AL 444-2: cerca de 3,6 milhões de anos atrás. Costuma-se atribuí-las a um par de Australopithecus afarensis que andavam juntos (de mãos dadas?), mas o que interessa é que, há cerca de 3,6 milhões de anos, um símio ereto andava pela Terra com dois pés que eram bem parecidos com os nossos, embora seu cérebro tivesse o tamanho do de um chimpanzé.

Parece bem provável que a espécie que chamamos de Australopithecus afarensis, a espécie de Lucy, tenha incluído nossos ancestrais de 3 milhões de anos atrás. Outros fósseis foram classificados em diferentes espécies do mesmo gênero, e é praticamente certo que nossos ancestrais foram membros desse gênero.

O primeiro australopitecino descoberto, o espécime-tipo do gênero, foi o chamado Bebê de Taung. Aos três anos e meio, o Bebê de Taung foi comido por uma águia. Isso é evidenciado pelo fato de as marcas de lesões nas cavidades oculares do fóssil serem idênticas às feitas por águias modernas em macacos modernos quando elas lhes arrancam os olhos. Coitadinho de você, Bebê de Taung, gritando pelos ares nas garras da fúria aquilina — não lhe serviria de consolo a fama a que estava destinado, 2,5 milhões de anos no futuro, como espécime-tipo do Australopithecus africanus. Pobre mãe de Taung, que ficou chorando no Plioceno.

Espécime-tipo é o primeiro indivíduo de uma nova espécie a ser nomeado e receber o rótulo virgem em um museu. Teoricamente, achados posteriores podem ser comparados com o espécime-tipo para ver se são compatíveis. O Bebê de Taung foi descoberto e ganhou nomes novos de gênero e espécie, dados pelo antropólogo sul-africano Raymond Dart em 1924.

Qual é a diferença entre "espécie" e "gênero"? Tiremos rapidamente essa questão do caminho antes de prosseguir. Gênero é a divisão mais abrangente. Uma espécie pertence a um gênero e, em muitos casos, compartilha o gênero com outras espécies.

Homo sapiens e Homo erectus são duas espécies do gênero Homo. Australopithecus africanus e Australopithecus afarensis são duas espécies do gênero Australopithecus.

O nome latino de um animal ou planta sempre inclui um nome genérico (com inicial maiúscula) seguido de um nome específico (sem maiúscula). Ambos são grafados em itálico. Às vezes há um nome adicional de subespécie em seguida ao nome da espécie, como em Homo sapiens neanderthalensis.

Os taxonomistas costumam discutir por causa de nomes. Muitos, por exemplo, falam em Homo neanderthalensis, e não em Homo sapiens neanderthalensis, elevando o homem de Neandertal de subespécie a espécie. Nomes genéricos e nomes específicos também são disputados, e muitas vezes mudam com as sucessivas revisões na literatura científica. O Paranthropus boisei já foi conhecido como Zinjanthropus boisei e Australopithecus boisei e muitos ainda se referem a ele informalmente como australopitecino robusto — em contraste com as duas espécies "gráceis" (esguias) de Australopithecus mencionadas acima. Uma das principais mensagens deste capítulo relaciona-se à natureza um tanto arbitrária da classificação zoológica.

Raymond Dart deu o nome de Australopithecus ao Bebê de Taung, o espécime-tipo do gênero, e desde então estamos presos a esse nome deprimentemente sem imaginação para nosso ancestral. Ele significa simplesmente "símio do sul". Não tem nada a ver com Austrália, que significa simplesmente "país meridional". Fica-se pensando que Dart poderia ter atinado com um nome mais imaginativo para um gênero tão importante. Ele poderia até ter conjecturado que outros membros desse gênero viriam a ser descobertos ao norte do equador.

Um pouco mais antigo que o Bebê de Taung, um dos crânios mais primorosamente preservados que temos, mesmo faltando-lhe a mandíbula, é chamado de sra. Ples. Ela, que na verdade pode ter sido um macho miúdo e não uma fêmea grande, ganhou esse apelido porque foi originalmente classificada no gênero Plesianthropus. Esse nome significa "quase humano", e é melhor do que "símio do sul".

Alguém poderia torcer para que, quando mais tarde os taxonomistas decidissem que a sra. Ples e seus parentes eram realmente do mesmo gênero que o Bebê de Taung, Plesianthropus passasse a ser a designação de todos eles. Infelizmente, as regras da nomenclatura zoológica são de um rigor pedante. A prioridade da nomeação tem precedência sobre o bom senso e a adequação. "Símio do sul" pode ser um nome sem graça, mas não importa: ele antecedeu o muito mais sensato Plesianthropus, e parece que estamos presos a ele, a menos que — ainda me divirto torcendo — alguém venha a descobrir, em alguma empoeirada gaveta de um museu sul-africano, um fóssil há muito tempo esquecido, claramente do mesmo tipo que a sra. Ples e o Bebê de Taung, mas com um rótulo assim rabiscado: "espécime tipo Hemianthropus, 1920". De um golpe, todos os museus do mundo imediatamente seriam obrigados a trocar o rótulo de seus espécimes e modelos de Australopithecus, e todos os livros e artigos sobre a pré-história dos hominídeos teriam de fazer o mesmo. Processadores de texto no mundo todo fariam hora extra buscando ocorrências de Australopithecus, para substitur por Hemianthropus. Não me ocorre nenhum outro caso no qual regras internacionais sejam poderosas o bastante para ditar uma mudança linguística mundial e retroativa da noite para o dia.

Passemos à minha próxima observação importante acerca dos alegados elos perdidos e da arbitrariedade dos nomes. Obviamente, quando o nome da sra. Ples foi mudado de Plesianthropus para Australopithecus nada mudou no mundo real. Presumo que ninguém seria tentado a pensar de outro modo. Mas considere um caso semelhante no qual um fóssil é reexaminado e transferido, por razões anatômicas, de um gênero para outro. Ou no qual sua condição de gênero é disputada — coisa que ocorre frequentemente — por antropólogos rivais. Afinal, é essencial para a lógica da evolução que tenham existido indivíduos situados exatamente na fronteira entre dois gêneros, como Australopithecus e Homo.

É fácil olhar para o crânio da sra. Ples e o de um Homo sapiens moderno e dizer, sim, não há dúvida de que esses dois crânios pertencem a gêneros distintos. Se supusermos, como quase todo antropólogo hoje em dia aceita, que todos os membros do gênero Homo descendem de ancestrais pertencentes ao gênero que chamamos de Australopithecus, decorre necessariamente que, em algum ponto na cadeia de descendência de uma espécie à outra, tenha havido pelo menos um indivíduo situado exatamente na fronteira. Essa é uma questão importante, portanto me demorarei nela um pouco mais.

Tendo em mente a forma do crânio da sra. Ples como representativo do Australopithecus africanas há 2,6 milhões de anos, examine o primeiro crânio na página ao lado [figura no original], chamado de KNM ER 1813. Depois observe o crânio seguinte [figura no original], chamado de KNM ER 1470. Ambos são datados de aproximadamene 1,9 milhão de anos atrás, e ambos são classificados pela maioria dos especialistas no gênero Homo.

Hoje, 1813 é classificado como Homo habilis, mas nem sempre foi assim. Até recentemente 1470 também era, mas agora estão tentando reclassificá-lo como Homo rudolfensis. Mais uma vez, perceba como nossos nomes são volúveis e transitórios. Mas não importa: parece que ambos estão consensualmente consolidados no gênero Homo. A óbvia diferença em relação à sra. Ples e seus parentes é que ela possuía a face mais projetada para a frente e uma caixa craniana menor. Em ambos os aspectos, 1813 e 1870 parecem mais humanos, e a sra. Ples, mais "simiesca".

Veja agora o crânio abaixo [figura no original], chamado de Twiggy. Também normalmente o classificam hoje como Homo habilis. Mas seu focinho proeminente lembra mais a sra. Ples do que 1470 ou 1813. Talvez você não se surpreenda quando souber que Twiggy foi classificada por alguns antropólogos no gênero Australopithecus e por outros no Homo. De fato, cada um desses três fósseis foram, em vários momentos, classificados como Homo habilis e Australopithecus habilis.

Como já mencionei, alguns especialistas em certos momentos deram a 1470 um diferente nome de espécie, mudando habilis para rudolfensis. E, para rematar, o nome específico rudolfensis foi afixado a ambos os nomes de gênero, Australopithecus e Homo. Em suma, esses três fósseis já foram chamados, por diferentes autoridades em momentos diferentes, com os seguintes conjuntos de nomes:
KNM ER 1813: Australopithecus habilis, Homo habilis
KNM ER 1470: Australopithecus habilis, Homo habilis, Australopithecus rudolfensis, Homo rudolfensis
OH 24 ("Twiggy"): Australopithecus habilis, Homo habilis

Tamanha confusão de nomes deveria abalar nossa confiança na ciência evolucionária? Muito pelo contrário. É exatamente o que devemos esperar, considerando que todas essas criaturas são intermediários evolucionários, elos que estavam perdidos mas não estão mais. Deveríamos ficar muito preocupados, isto sim, se não existissem intermediários tão próximos de fronteiras que temos dificuldade para classificá-los. Aliás, da perspectiva evolucionária, atribuir nomes separados deveria, na realidade, tornar-se impossível se o registro fóssil fosse mais completo. De certa forma, é uma sorte que os fósseis sejam tão raros. Se tivéssemos um registro fóssil contínuo e ininterrupto, a atribuição de nomes distintos a espécies e gêneros ficaria impossibilitada ou seria, no mínimo, muito problemática.

Isso nos autoriza a chegar a uma interessante conclusão: a fonte predominante de discordância entre os paleoantropólogos — se determinado fóssil pertence a esta ou àquela espécie — é absolutamente .

Imagine a situação hipotética de que, por um golpe de sorte, fôssemos abençoados com um registro fóssil contínuo de toda a mudança evolucionária, sem nenhum elo perdido. Agora observe os quatro nomes latinos que foram dados a 1470. À primeira vista, a mudança de habilis para rudolfensis pareceria ser uma mudança menor do que a de Australopithecus para Homo. Duas espécies de um mesmo gênero são mais parecidas entre si do que dois gêneros. Não são? Essa não é toda a base da distinção entre o nível dos gêneros (por exemplo, Homo ou Pan como gêneros alternativos de grandes primatas africanos) e o nível das espécies (por exemplo, troglodytes ou paniscus entre os chimpanzés) na hierarquia da classificação?

Bem, sim, isso é correto quando estamos classificando animais modernos, que podemos considerar as pontas dos raminhos da árvore evolucionária, com todos os seus antecessores na parte interna da copa da árvore confortavelmente mortos ou fora do caminho. Naturalmente, os raminhos que se encontram uns com os outros mais no interior da copa da árvore tenderão a ser menos parecidos do que aqueles cuja junção (o ancestral comum mais recente) seja mais próxima das pontas.

O sistema funciona, contanto que não tentemos classificar os antecessores mortos. Mas assim que incluímos nosso registro fóssil hipoteticamente completo, todas as nítidas separações desaparecem. Nomes distintos tornam-se, como regra geral, impossíveis de ser aplicados.

Podemos ver isso com facilidade voltando ininterruptamente no tempo, como fizemos com os coelhos no capítulo 2. Conforme regredirmos no tempo e reconstituirmos a linhagem do Homo sapiens moderno, teremos de chegar a um momento em que a diferença em relação às pessoas vivas é suficientemente grande para merecer outro nome de espécie, digamos, Homo ergaster. No entanto, a cada passo do caminho, os indivíduos eram, presumivelmente, semelhantes a seus pais e a seus filhos o bastante para ser classificados na mesma espécie.

Agora voltamos mais no tempo, reconstituindo a descendência do Homo ergaster, e chegaremos fatalmente a um momento em que vemos indivíduos que diferem o suficiente do esgaster "típico" para merecer um nome de espécie distinto, digamos Homo habilis.

E agora chegamos à parte principal deste argumento. Quando retrocedermos ainda mais, em algum ponto teremos de começar a ver indivíduos que diferem do Homo sapiens moderno o suficiente para merecer um nome de gênero distinto, por exemplo Australopithecus. O problema é que "suficientemente diferente do Homo sapiens moderno" é uma coisa, e "suficientemente diferente do Homo mais antigo", aqui designado como Homo habilis, é bem outra.

Imagine o primeiro espécime de Homo habilis que nasceu. Os pais dele eram Australopithecus. Ele pertenceu a um gênero diferente do de seus pais? Ridículo. No entanto, certamente é verdade, em certo sentido. Mas não é a realidade que está errada, é a nossa insistência humana em inserir tudo numa categoria nomeada. Na verdade, não existiu nenhuma criatura que tenha sido O primeiro espécime de Homo habilis. Não existiu primeiro espécime de nenhuma espécie ou gênero, ordem, classe e filo. Cada criatura nascida teria sido classificada — se houvesse um zoólogo presente para fazer a classificação — como pertencente à mesmíssima espécie de seus pais e de seus filhos. Contudo, com os olhos da modernidade e com o benefício — sim, neste sentido paradoxal, benefício — do fato de que a maioria dos elos está perdida, a classificação em espécies, gêneros, famílias ordens, classes e filos distintos torna-se possível.

Eu bem que gostaria que tivéssemos uma trilha ininterrupta de fósseis, um registro cinematográfico de toda a mudança evolucionária já ocorrida. Gostaria, sobretudo, porque iria achar o máximo ver a cara de tacho dos zoólogos e antropólogos que se engalfinham a vida inteira por causa de um fóssil que deve pertencer a esta ou àquela espécie ou gênero. Senhores — e me pergunto assim por que parece quase nunca serem as senhoras —, vocês estão brigando por causa de palavras e não da realidade.

Como disse o próprio Darwin em A origem do homem: "Em uma série de formas que passaram de modo gradual e imperceptível de alguma criatura simiesca ao homem como ele hoje existe, seria impossível fixar em algum ponto definido onde o termo 'homem' deve ser usado [pela 1ª vez]".

Examinemos os fósseis, atentando para alguns elos mais recentes entre os que não estão mais perdidos mas estavam na época de Darwin. Que intermediários podemos encontrar entre os humanos e as várias criaturas, como 1470 e Twiggy, que são chamadas ora de Homo, ora de Australopithecus?

Já encontramos alguns deles, como o Homem de Java e o Homem de Pequim, normalmente classificados como Homo erectus. Mas esses dois viveram na Ásia, e existem boas evidências de que a maior parte da nossa evolução humana aconteceu na África. O Homem de Java, assim como o Homem de Pequim e seus parentes, foram emigrantes da África, o continente-mãe. Seus equivalentes na própria África costumam ser hoje classificados como Homo ergaster, embora por muitos anos todos fossem chamados de Homo erectus — mais um exemplo da volubilidade dos nossos procedimentos nomenclaturais.

O mais famoso espécime de Homo ergaster e um dos mais completos fósseis pré-humanos já encontrados é o Garoto de Turkana, ou Garoto de Nariokotome, descoberto por Kamoya Kimeu, o maior descobridor de fósseis da equipe de paleontólogos de Richard Leakey.

O Garoto de Turkana viveu há aproximadamente 1,6 milhão de anos e morreu com cerca de onze anos de idade. Há indícios de que ele cresceria até 1,80 m se chegasse à idade adulta. O volume projetado para seu cérebro adulto teria sido de aproximadamente 900 centímetros cúbicos (cc). Esse valor é típico do cérebro do Homo ergaster/erectus, que variava em torno de 1000 cc. É significativamente menor que o do cérebro humano moderno, com mais ou menos 1300 ou 1400 cc, porém maior que o do Homo habilis (aproximadamente 600 cc), o qual, por sua vez, era maior que o do Australopithecus (cerca de 400 cc) e o dos chimpanzés (aproximadamente o mesmo).

O leitor deve lembrar-se de que concluímos que nosso ancestral de 3 milhões de anos atrás tinha cérebro como o de um chimpanzé, mas andava nas pernas traseiras. Com isso, podemos presumir que a segunda metade da história, de 3 milhões de anos atrás até tempos recentes, seria uma história de tamanho crescente do cérebro. E, de fato, isso é verdade.

O Homo ergaster/erectus, do qual possuímos muitos espécimes fósseis, é um elo intermediário muito persuasivo, não mais perdido, entre o Homo sapiens atual e o Homo habilis de 2 milhões de anos atrás, o qual, por sua vez, é um ótimo elo com o Australopithecus de 3 milhões de anos atrás, que, como vimos, poderia muito bem ser descrito como um chimpanzé que andava aprumado.

De quantos elos você precisa para admitir que eles não estão mais "perdidos"? E podemos também preencher a lacuna entre o Homo ergaster e o Homo sapiens moderno? Sim: temos um rico filão de fósseis, abrangendo as últimas centenas de milhares de anos, que são intermediários entre eles. Alguns receberam nome de espécie, como Homo heidelbergensis, Homo rhodesiensis e Homo neanderthalensis. Outros (e, em alguns casos, esses mesmos) são chamados de Homo sapiens "arcaicos". Porém, como não me canso de repetir, nomes não importam. O que importa é que os elos não estão mais perdidos. Existe uma profusão de intermediários.


VÁ E VEJA

Temos, pois, uma boa documentação fóssil da mudança gradual, desde Lucy, o "chimpanzé que andava ereto" de 3 milhões de anos atrás, até nós no presente. O que fazem os negadores da história diante dessa evidência? Alguns simplesmente a negam. Deparei com um caso desses durante uma entrevista que dei para o documentário The genius of Charles Darwin, transmitido pelo Chanel Four em 2008.

Eu estava entrevistando Wendy Wright, presidente da organização feminista Concerned Women for America. A opinião dessa senhora de que "a pílula do dia seguinte é a melhor amiga do pedófilo" já dá uma boa idéia de sua capacidade de raciocínio, e ela correspondeu totalmente às expectativas durante nossa entrevista. Só uma pequenina parte da entrevista foi apresentada no documentário para a televisão. O que se segue é uma transcrição bem mais completa, mas obviamente, para os objetivos deste capítulo, limitei-me aos trechos nos quais debatemos sobre o registro fóssil da linhagem humana.

Wendy: Volto a dizer que os evolucionistas continuam sem ciência para comprovar isso. O que acontece é que a ciência que não promove a causa da evolução é censurada. Por exemplo, a falta de evidências de uma evolução que leva de uma espécie a outra. Se fosse assim, se a evolução houvesse acontecido, então com certeza, quer fosse de aves para mamíferos ou, ou, até além disso, com certeza existiria pelo menos uma evidência.

Richard: Existe uma quantidade colossal de evidências. Desculpe, mas vocês ficam repetindo isso como se fosse um mantra porque só ouvem uns aos outros. Poderiam pelo menos abrir os olhos e examinar as evidências.

Wendy: Então me mostre, me mostre os ossos, me mostre a carcaça, me mostre as evidências dos estágios intermediários de uma espécie a outra.

Richard: Toda vez que é encontrado um fóssil que é intermediário entre uma espécie e outra, vocês dizem "Ah, agora temos duas lacunas onde antes só existia uma". Acontece que quase todo fóssil encontrado é intermediário entre uma coisa e outra.

Wendy [rindo]: Se fosse assim, o Museu Smithsoniano de História Natural estaria cheio desses exemplos, só que não está.

Richard: Está, está sim... No caso dos humanos, desde o tempo de Darwin temos agora uma quantidade enorme de evidências de intermediários em fósseis humanos, temos várias espécies de Australopithecus por exemplo, e... e temos o Homo habilis — esses são intermediários entre o Australopithecus, que foi uma espécie mais antiga, e o Homo sapiens, que é uma espécie mais recente. Então por que vocês não vêem esses intermediários?

Wendy: ... se a evolução tivesse verdadeiras evidências, elas estariam expostas em museus, e não apenas em ilustrações.

Richard: Mas eu acabei de mencionar o Australopithecus, o Homo habilis, o Homo erectus, o Homo sapiens — Homo sapiens arcaico e depois o Homo sapiens moderno —, esta é uma bela série de intermediários.

Wendy: Vocês ainda não têm as evidências materiais, portanto...

Richard: As evidências materiais estão lá. Vá ao museu e veja-as... Não as tenho aqui, obviamente, mas você pode ir ao museu e verá o Australopithecus, verá o Homo habilis, verá o Homo erectus, verá o Homo sapiens arcaico e o Homo sapiens moderno. Uma bela série de intermediários. Por que continua dizendo "Me mostre as evidências" se eu já fiz isso? Vá ao museu e veja.

Wendy: Pois eu fui. Eu fui aos museus, e há muitos de nós que ainda não estão convencidos...

Richard: Você viu? Você viu o Homo erectus?

Wendy: E acho que esse empenho, esse empenho tão grande em tentar nos persuadir e nos censurar, parece vir de uma frustração pelo fato de tanta gente ainda não acreditar na evolução. Ora, se os evolucionistas tivessem tanta confiança naquilo em que acreditam não haveria o empenho em censurar informações. Isso mostra que a evolução ainda é falha e é questionável.

Richard: Eu estou... confesso que estou frustrado. Não se trata de supressão, é o fato de que lhe falei sobre cinco fósseis... [Wendy ri] ... e você parece não fazer caso do que estou dizendo... Por que você não vai ver esses fósseis?

Wendy: ... Se eles estivessem nos museus, onde já estive tantas vezes, então eu os examinaria objetivamente, mas o que torno a dizer é...

Richard: Eles estão no museu.

Wendy: O que torno a dizer é que a filosofia da evolução pode conduzir a ideologias que têm sido muito destrutivas para a raça humana...

Richard: Sim, mas não seria uma boa idéia se, em vez de ficarem ressaltando interpretações errôneas do darwinismo, que foram abominavelmente usadas para fins políticos, vocês tentassem entender o darwinismo, para estar em condições de contrapor-se a esses horríveis mal-entendidos?

Wendy: Ora, na verdade somos frequentemente forçados pela agressividade dos que defendem a evolução. Não somos barrados dessas informações que vocês vivem apresentando. Não é que elas sejam desconhecidas por nós, pois não conseguimos escapar delas. Elas são jogadas na nossa cara o tempo todo. Mas acho que a frustração de vocês provém do fato de que tantos de nós que viram as suas informações ainda não engoliram a sua ideologia.

Richard: Você viu o Homo erectus? Você viu o Homo habilis? Você viu o Australopitecus? Essa é a pergunta que lhe faço.

Wendy: O que eu vi é que, nos museus e nos livros didáticos, sempre que afirmam estar mostrando as diferenças evolucionárias de uma espécie a outra é com base em ilustrações e desenhos... não em evidências materiais.

Richard: Bem, talvez você tenha de ir ao Museu de Nairobi para ver os fósseis originais, mas você pode ver os moldes dos fósseis — cópias exatas desses fósseis em qualquer museu importante que resolva visitar.

Wendy: Nossa, posso saber por que você é tão veemente? Por que é assim tão importante que todo mundo acredite no que você acredita?

Richard: Não estou falando de crença. Estou falando de fatos. Eu lhe falei sobre determinados fósseis, e toda vez que lhe pergunto sobre eles você foge da pergunta, muda de assunto.

Wendy:... Deveriam existir toneladas de evidências materiais, e não apenas uma coisa isolada, mas ainda assim isso não é evidência.

Richard: Por acaso escolhi fósseis de hominídeos porque achei que você se interessaria mais por eles, mas você poderá encontrar fósseis semelhantes de qualquer grupo de vertebrados que desejar.

Wendy: Mas volto à pergunta de por que é tão importante para você que todo mundo acredite na evolução...

Richard: Não gosto da palavra acreditar. Prefiro apenas pedir às pessoas que vejam as evidências, e estou pedindo a você que veja as evidências... Quero que você vá aos museus e veja os fatos e não acredite em quem lhe disse que não existem evidências. Vá e veja as evidências.

Wendy [rindo]: Sim, e o que eu diria...

Richard: Não é engraçado. Vá mesmo. Vá. Eu lhe falei sobre fósseis de hominídeos, e você pode ver a evolução do cavalo, você pode ver a evolução dos primeiros mamíferos, você pode ver a evolução dos peixes, você pode ver a transição de peixes para anfíbios e répteis terrestres. Qualquer uma dessas coisas você encontrará em qualquer bom museu. Então abra os olhos e veja os fatos!

Wendy: E eu digo: abra você os olhos e veja as comunidades que foram construídas pelos que acreditam em um Deus amoroso que criou cada um de nós...
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Pode parecer, nesse diálogo, que eu estava sendo desnecessariamente obstinado em repetir o pedido para que ela fosse ao museu, mas era o que eu realmente pretendia. Essa gente foi treinada para dizer: "Não existem fósseis, mostre-me as evidências, mostre-me pelo menos um fóssil...". E dizem isso tantas vezes que acabam acreditando. Por isso, experimentei mencionar três ou quatro fósseis a essa mulher e não deixar que ela escapasse simplesmente desconsiderando-os.

Os resultados foram deprimentes, e exemplificam bem a tática mais comum usada pelos negadores da história quando são confrontados com as evidências da história: simplesmente não faça caso e repita o mantra: "Mostre-me os fósseis. Onde estão os fósseis? Não existem fósseis. Vamos, me mostre um único fóssil intermediário, é só o que eu peço...".

Outros se embriagam com nomes e com a inevitável tendência que têm os nomes de criar falsas divisões onde não existe nenhuma. Cada fóssil que potencialmente poderia ser um intermediário é sempre classificado ou como Homo ou como Australopithecus. Nenhum jamais é classificado como 'intermediário'. Por isso 'não há' intermediários. Porém, como já expliquei, essa é uma inevitável consequência das convenções da nomenclatura zoológica, e não um fato do mundo real.

O mais perfeito intermediário que pudéssemos imaginar ainda se encontraria inserido ou entre os Homo ou entre os Australopithecus. Aliás, é provável que ele viesse a ser chamado de Homo por metade dos paleontólogos e de Australopithecus pela outra metade.

E é uma lástima que, em vez de se reunirem e concluir que os fósseis ambiguamente intermediários são bem o que devemos prever com base na teoria evolucionária, provavelmente podemos predizer que os paleontólogos dariam uma impressão totalmente falsa, parecendo quase chegar às vias de fato por causa de discordâncias terminológicas.

O problema lembra um pouco a distinção legal entre um adulto e um menor de idade. Para fins legais e para decidir se um jovem tem idade para votar ou prestar o serviço militar, é necessário fazer uma distinção absoluta. Em 1969 a idade legal para votar na Grã-Bretanha foi reduzida de 21 para dezoito anos (em 1971 os Estados Unidos fizeram a mesma mudança). Agora se fala em baixá-la para dezesseis. Mas qualquer que seja a idade legal para votar, ninguém realmente acha que quando o relógio dá meia-noite no dia do décimo oitavo aniversário (ou vigésimo primeiro, ou décimo sexto) você verdadeiramente se torna uma pessoa diferente. Ninguém acredita que existem dois tipos de pessoas, crianças e adultos, sem "intermediários". Obviamente, todos compreendemos que todo o período de crescimento é um longo exercício de intermediação. Alguns de nós, pode-se dizer, nunca chegaram a crescer realmente.

De modo análogo, a evolução humana, de algo como o Australopithecus afarensis ao Homo sapiens, consistiu em uma ininterrupta série de pais que geraram filhos que sem dúvida seriam classificados, por um taxonomista contemporâneo, na mesma espécie de seus pais.

Na posição de quem hoje olha o passado, e por razões que não estão longe de ser legalistas, taxonomistas modernos insistem em pregar um rótulo em cada fóssil que diga obrigatoriamente algo como Australopithecus ou Homo. Rótulos de museus não podem, de jeito nenhum, dizer "intermediário entre Australopithecus africanas e Homo habilis". Os negadores da história agarram-se a essa convenção nomenclatural como se ela fosse evidência de uma ausência de intermediários no mundo real.

Ora, assim também poderíamos dizer que não existem adolescentes, pois cada pessoa que olhamos ou é um adulto votante (maior de dezoito anos) ou é uma criança não votante (menor de dezoito anos). Equivale a dizer que a necessidade legal de um limiar para a idade de votar prova que a adolescência não existe.
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Voltemos aos fósseis. Se os apologistas do criacionismo estiverem certos, o Australopithecus "é só um macaco", portanto seus predecessores são irrelevantes para a busca de "elos perdidos". Ainda assim, podemos examiná-los. Existem alguns vestígios, embora muito fragmentários.

O Ardipithecus, que viveu há 4-5 milhões de anos, é conhecido sobretudo com base em dentes, mas foram encontrados ossos do crânio e do pé em número suficiente para indicar, ao menos para a maioria dos anatomistas que o estudaram, que ele andava ereto.

A conclusão bem parecida chegaram os respectivos descobridores de dois fósseis ainda mais antigos, o Orrorin ("Homem do Milênio") e o Sahelanthropus ("Toumai").

O Sahelanthropus destaca-se por ser antiquíssimo (6 milhões de anos, próximo da idade do ancestral que temos em comum com os chimpanzés) e por ter sido encontrado no extremo ocidental do vale do Rift (no Chade, onde o nome "Toumai" significa "esperança de vida").

Outros paleoantropólogos mostram ceticismo quanto à afirmação, pelos descobridores, de que o Orrorin e o Sahelanthropus eram bípedes. E, como um cínico poderia salientar, para cada um desses fósseis problemáticos, parte dos que duvidam é composta de descobridores de outros! A paleoantropologia, mais do que outros campos da ciência, é tristemente assolada - ou será estimulada? — por rivalidades.

Temos de admitir que o registro fóssil que liga o símio que andava ereto, Australopithecus, ao ancestral (presumivelmente) quadrúpede que temos em comum com os chimpanzés ainda é pobre. Não sabemos como os nossos ancestrais passaram a andar com as pernas traseiras. Precisamos de mais fósseis. Mas ao menos exultemos com o bom registro fóssil de que, ao contrário de Darwin, hoje dispomos, mostrando a transição evolucionária do Australopithecus, com seu cérebro do tamanho do de um chimpanzé, ao Homo sapiens moderno, com nosso crânio abalonado e cérebro grande.

Ao longo de toda esta seção reproduzi figuras de crânios [vide original] e sugeri que os comparássemos. Você talvez tenha notado, por exemplo, a protrusão do focinho em alguns fósseis, ou das arcadas superciliares. Em alguns casos a diferença é muito sutil, o que ajuda a avaliar as transições graduais de um fóssil para outro posterior.

Mas agora quero introduzir uma complicação que se desdobrará em uma questão interessante em si mesma. As mudanças que ocorrem durante a vida de um indivíduo conforme ele cresce são, em qualquer caso, muito mais drásticas do que as que vemos quando comparamos adultos de sucessivas gerações.

O crânio abaixo [figura no original] é de um chimpanzé pouco antes de nascer. É evidente que ele difere totalmente do crânio de chimpanzé adulto mostrado na página 179 e se parece bem mais com um crânio humano (de adulto e de bebê).

Há uma imagem muitas vezes reproduzida (ver abaixo) de dois chimpanzés, um bebê e um adulto, que é frequentemente usada para ilustrar a interessante idéia de que, na evolução humana, características juvenis conservam-se na idade adulta (ou — o que não necessariamente é a mesma coisa — que nos tornamos sexualmente maduros enquanto nosso corpo continua juvenil).

Achei que essa figura parecia boa demais para ser verdadeira e enviei-a a meu colega Desmond Morris, pedindo sua opinião de especialista. Perguntei: poderia ser forjada? Ele já vira algum jovem chimpanzé tão parecido com um humano? O dr. Morris declarou-se cético com relação às costas e ombros, mas não fez objeções à cabeça. "Os chimpanzés têm uma postura caracteristicamente curvada, e este tem o pescoço assombrosamente ereto de um humano. Mas se considerarmos a cabeça isoladamente, a figura é confiável."

Sheila Lee, que fez a pesquisa de imagens para este livro, encontrou a fonte original dessa famosa fotografia, uma expedição ao Congo em 1909-15 organizada pelo Museu Americano de História Natural. Os animais estavam mortos quando foram fotografados, e ela informou que o fotógrafo, Herbert Lang, era também taxidermista. Seria tentador desconfiar que a postura estranhamente humana do bebê chimpanzé deve-se a um empalhamento malfeito, não fosse o fato de que, segundo o museu, Lang fotografou seus espécimes antes de os empalhar. Ainda assim, a postura de um chimpanzé morto pode ser ajustada, coisa que não se pode fazer com um chimpanzé vivo.

A conclusão de Desmond Morris parece sustentar-se. A postura semelhante à humana dos ombros do bebê chimpanzé pode ser suspeita, mas a cabeça é confiável. Se considerarmos verdadeira a cabeça do modo como ela é mostrada na foto, mesmo que os ombros não suportem direito o peso da autenticidade, podemos ver imediatamente como uma comparação de crânios fósseis de adultos é conducente a equívocos. Ou, em termos mais construtivos, a marcante diferença entre as cabeças adulta e juvenil mostra que é fácil uma característica como a protrusão do focinho poder mudar exatamente na direção certa para se tornar mais — ou menos — humana.

A embriologia do chimpanzé "sabe" como fazer uma cabeça semelhante à humana, já que faz isso para todo chimpanzé quando ele passa por sua fase de infante. Parece muito plausível que, à medida que o Australopithecus evoluiu através de vários intermediários até o Homo sapiens, encurtando seu focinho pelo caminho, esse processo tenha seguido a óbvia rota de conservar características juvenis até a idade adulta (o processo chamado neotenia, mencionado no capítulo 2).

Seja como for, boa parte da mudança evolucionária consiste em mudanças na razão à qual certas partes crescem em relação a outras partes. Chamamos esse crescimento de heterocrônico ("em ritmos desiguais").

Acho que estou querendo dizer que a mudança evolucionária é fácil assim que aceitamos os fatos observados da mudança embriológica. Os embriões formam-se por crescimento diferencial — pedaços diferentes crescem a taxas diferentes. O crânio de um bebê chimpanzé transforma-se no crânio adulto através do crescimento relativamente rápido dos ossos dos maxilares e do focinho em relação a outros ossos cranianos.

Repetindo: cada animal de cada espécie muda, durante seu desenvolvimento embriológico, muito mais drasticamente do que a forma adulta típica muda de geração a geração no decorrer das eras geológicas. E esta é a minha deixa para um capítulo sobre a embriologia e sua importância para a evolução.

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