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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Nos labirintos de Eco (Orlando Fedeli) - Cap. 1: Édipo e Tirésias


(Continuação da obra "Nos labirintos de Eco",
de Orlando Fedeli)


CAPÍTULO I
ÉDIPO E TIRÉSIAS


"No século XVIII, o embate entre iluministas e iluminados 
que foi senão uma nova fase dessa guerra teológico-metafísica 
que percorre a História?"
(Orlando Fedeli) 


Édipo e O Nome da Rosa parecem tão pouco relacionados quanto distantes no tempo. E, contudo, estão profundamente ligados. Os problemas humanos são, no fundo, os mesmos em todas as épocas e as divergências de Édipo com o cego Tirésias são repetidas em paralelo pelas de Frei Guilherme de Baskerville com o cego da biblioteca, o monge Jorge de Burgos. 

Édipo é o racionalista que crê no poder ilimitado da inteligência humana. Tirésias é o místico iluminado por visões interiores, e que despreza a razão. Édipo, por seu lado, desdenha a visão mística:

"Eu, Édipo, sem de nada saber
logo ao chegar, fiz a esfinge calar:
deslindei a questão pela razão
nem foi preciso consultar teus pássaros"

e que acaba por odiar aquele que tem uma visão profética:

"Olho de sombra sem fim,
não tens nenhum poder de malefício
contra quem pode ver a luz do dia".

Por sua vez, Tirésias devolve a Édipo todo o seu desprezo e ataca a luz da razão como falsa:

"Os dois olhos que tens pouco adiantam,
pois não vês a miséria que te cerca
(…)
em teus olhos, que hoje pensam ver claro,
terás então a treva irreversível".
(Sófocles, Édipo Rei, Abril, S. Paulo, 1976).

Esse duelo continua em O Nome da Rosa entre as figuras de Frei Guilherme de Baskerville (uma das máscaras de Eco) e do monge cego Jorge de Burgos (máscara-símbolo de Borges)

Como Édipo, Frei Guilherme é o nominalista que se julga capaz de tudo compreender, analisando os dados concretos. Jorge de Burgos, o cego da biblioteca, tudo conserva em sua memória, enquanto combate ferozmente o riso, próprio do ser racional. 

A tragédia de Édipo é a do homem que julga tudo compreender, mas que ignora sua própria identidade. Que pensa ter conhecido o segredo da Esfinge, ter entendido o mistério do universo – o Homem — mas que (Pobre Édipo!) não sabia que homem ele próprio era. É a tragédia de quem julga ter vencido a esfinge, porque lhe deu uma resposta que a fez precipitar-se no mar, deixando-lhe, contudo, fincada na cabeça, a ilusão racionalista. 

O cego Tirésias é que "enxergava" a verdade. Sem poder usar o mais elevado dos sentidos cognoscitivos, ele conhecera a realidade melhor do que Édipo, com todo o seu intelecto e os seus raciocínios. A antiga tragédia grega proclama o triunfo da visão alógica do misticismo sobre a razão discursiva edipiana. Assim, ao constatar o fracasso da inteligência na busca da verdade, Édipo fura seus próprios olhos, num gesto simbólico de sua renúncia à razão. 

Paradoxalmente, porém, a representação da figura de Édipo dialogando com a Esfinge, mostra-o numa encruzilhada — lugar protegido por Hermes, deus da doutrina secreta e mística — e vestido como esse Deus. Édipo é mostrado sentado sobre um "hermaion" e tendo nas mãos um cajado hermético. Assim, o racionalista Édipo é, no fundo de seu ser, o místico Tirésias. Ambos se combatem e se admiram. Como Frei Guilherme de Baskerville e Jorge de Burgos. (Cfr. R531). Inclusive, em certo momento do romance, o jovem Adso de Melk constata que o racionalista Guilherme de Baskerville é "mais místico que Ubertino" da Casale (R242).

O mito de Édipo era, no fundo, uma forte acusação contra os deuses que governavam o universo. Tais deuses, jamais amados pelos gregos, traçavam destinos cruéis para os homens e se divertiam com as suas dores. O homem da tragédia grega era um mero instrumento material, sem liberdade, nas mãos do arbítrio dos deuses. Estes, sim, é que eram, na realidade, os únicos culpados por todos os crimes, por todos os incestos, por todos os parricídios. 

O que a tragédia põe em evidência é a existência de duas correntes opostas, no mundo grego. Uma, a oficial, adorava o universo e seus deuses. Era uma corrente racionalista, e cultuadora da lógica. Dela, Édipo, o decifrador do mistério do homem, é o símbolo. A outra considerava o universo material como o labirinto-cárcere do homem, e tinha os deuses deste universo como arcontes malévolos. Dessa corrente amarga era símbolo o cego Tirésias. Esta corrente antirracional, em lugar de Apolo, cultuava Dionísio. A primeira corrente era panteísta; a segunda era gnóstica. A primeira tinha o apoio do Estado; a segunda era esotérica e secreta.

Da existência dessas duas correntes dá testemunho o Pe. Festugière em sua célebre obra a respeito do Hermes Trismegisto. Diz ele que podem ser constatadas duas correntes no pensamento grego e no hermetismo: uma otimista, outra pessimista. A corrente otimista é panteísta e considera o universo bom e mesmo divino. A pessimista é gnóstica e julga que o mundo material é mau e produzido por um demiurgo maldito, inimigo da Divindade, o qual teria encerrado as partículas da Divindade boa no cárcere da matéria. (Cfr. A. J. Festugière, La Révelation d’Hermès Trismegiste, Lib. Lecofre-Gabalda, Paris, 1953, Vol. III, pp. 37, 61, 73, 83). 

A existência dessas duas correntes não se restringe ao mundo grego e nem mesmo ao mundo antigo. Como vimos, elas perpassam por toda a História, o que significa que são o resultado de posicionamentos errôneos que o homem pode tomar diante da realidade

Com efeito, diante do ser, o espírito humano pode adotar três posturas:

1 – Considerar que o ser é unívoco. Quando tal ocorre, o homem cai no panteísmo, visto que, então, tanto uma pedra quanto Deus são igualmente seres. É a posição de Parmênides, na filosofia antiga ["Tudo é um"]. Desta postura decorria a adoração do universo e o desprezo do indivíduo. Tudo seria Deus. No mundo moderno, essa tendência panteísta, fruto de uma visão unívoca e igualitária do ser, conduziu à adoração do Homem e da Razão, "último estágio da evolução". O cientificismo materialista e racionalista do mundo atual tem aí suas raízes, que historicamente principiaram com o nominalismo de Ockham.

2 – Considerar o ser como equívoco. Em conseqüência, afirma-se que o universo não tem nenhuma relação com o Ser de Deus. Ora, como ensina São Paulo na Epístola aos Romanos (I, 20), "as perfeições invisíveis de Deus tornaram-se visíveis, depois da criação do mundo, e podem ser compreendidas por meio das coisas criadas". Afirmar que o ser é equívoco é negar qualquer possibilidade de compreender algo de Deus através das criaturas. Desemboca-se então no deísmo e, depois, no ateísmo. [Nota do blog: Certos deístas, de fato, trilham essa rota - deísmo/ateísmo, deísmo/panteísmo, deísmo/gnose -; mas não todos, e não necessariamente. Vale lembrar que 'extraviados' os há em qualquer escola teórica.] 

Aprofundando-se essa segunda tendência, pode-se chegar a afirmar que os seres criados são tão dissemelhantes da Divindade que se poderia dizer que são contrários a Ela. Quando tal ocorre, o homem cai na Gnose. Esta considera que o universo é essencialmente mau por aprisionar as partículas da Divindade na matéria, nas malhas da Lógica e nas cadeias da Moral. Tais partículas eram chamadas de Fünkenlein por Mestre Eckhart, de Atmans pelos Brâmanes, de Éons pelos gnósticos dos primeiros séculos do cristianismo. O Deus criador do universo seria o demiurgo mau. Ele teria dado a razão ao homem para que esta o enganasse. Compreendendo o mundo, o homem julgá-lo-ia bom, porque inteligível. O homem quereria, por isso, permanecer neste mundo, e não desejaria retornar à Divindade da qual procedera. A libertação das partículas divinas aprisionadas na matéria exigiria a renúncia à razão, além da destruição da materialidade e da violação de todas as leis morais estabelecidas pelo Deus criador do universo. No extremo, desejar-se-ia a destruição de todo ser, de toda existência. A Gnose é anti-metafísica

Dessa posição antirracional participam muitos e importantes movimentos do mundo atual. Delas o nazismo irracional e anti-metafísico é o exemplo mais trágico e mais criminoso. Na chamada "Civilização Moderna", as nascentes deste rio gnóstico se encontram em Mestre Eckhart. 

3- Considerar o ser como análogo. Isto significa que as criaturas do universo são seres, mas não do mesmo modo como Deus é Ser. Nas criaturas, pode haver vestígio, imagem ou semelhança de Deus. Nas coisas materiais e irracionais, há apenas vestígio de Deus pela ordem e bondade de seu ser; nos seres racionais e espirituais, há imagem de Deus, porque, como o Criador, esses seres têm inteligência e vontade; neles, ainda, pode haver semelhança, caso sejam obedientes à lei divina que os faz santos como Deus. Tal é a explanação de São Boaventura. (Cfr. S. Boaventura, Itinerarium mentis in Deum, I,2; II e III; Breviloquium, II, cap.III, n.1. Obras Completas de São Boaventura, Bac, Barcelona, vol. I, p. 248). Portanto, entre os seres criados e Deus não há igualdade, nem identidade, mas apenas semelhança ou analogia. 

Essa é a doutrina católica sobre a analogia entre o Criador e as criaturas. Esta posição se opõe quer à concepção panteísta do materialismo racionalista, quer à concepção, anti-racional, anti-material e anti-metafísica da Gnose. 

No decorrer da História o homem tem oscilado, como um pêndulo, entre dois erros: o racionalismo materialista e panteísta e o misticismo gnóstico irracionalista, passando da afirmação de que tudo é Deus, para a negação da existência do ser, ao afirmar que Deus é o nada. Assim, a mesma oscilação e a mesma luta que o Padre Festugière detectou na antigüidade pagã, ressurgiu no final da Idade Média, na luta entre os espiritualistas, seguidores do gnóstico Mestre Eckhart, e os racionalistas nominalistas, discípulos do Guilherme de Ockham. 

Após um curto período em que gnósticos místicos e racionalistas panteístas se harmonizaram em homens-símbolo como Lutero e Leonardo da Vinci, a luta entre essas duas correntes recomeçou, fazendo de novo o Pêndulo da humanidade oscilar do polo panteísta ao polo gnóstico. A guerra movida por Lutero contra os místicos anabatistas seguidores de Münzer, assim como as divergências entre os renascentistas mágicos e os racionalistas são provas disso. 

O século de Descartes (1596-1650) e o do racionalismo foi também o de Jacob Boehme (1575-1624) e o de Pascal (1623-1668). Descartes friamente exaltava a razão. Pascal lhe respondia que o coração tem razões que a razão desconhece…

Leszek Kolakowsky, em seu livro sobre as seitas místicas do século XVII, mostra que elas tinham uma postura muito semelhante à dos gnósticos dos primeiros tempos do cristianismo e da antigüidade. Ao mesmo tempo, havia pensadores que defendiam uma posição racionalista e empiricista que, no fundo, negava todo o sobrenatural. (Cfr. L. Kolakowsky, Chrétiens sans Église, Gallimard, Paris, 1965, pp. 23 a 63).

No século XVIII, o embate entre iluministas e iluminados que foi senão uma nova fase dessa guerra teológico-metafísica que percorre a História? De novo, o homem oscilou de Voltaire a Rousseau, de Diderot a Saint-Martin, do racionalismo deísta ou ateu da Enciclopédia à mística martinesista de Joseph de Maistre. Foi essa oscilação pendular que arrastou os revolucionários aos altares da deusa Razão com Hébert e os "Enragés", e até o campo de Marte para adorar o Ser Supremo erguido por Robespierre, em oposição ao culto da Razão. Os "Enragés" queriam um comunismo ateu. Robespierre os guilhotinou e tentou instaurar um socialismo religioso, sentimental, místico e irracional. Dos ‘Enragés" de Hébert vieram o socialismo dito científico de Marx, o realismo e o naturalismo. De Robespierre vieram os socialistas utópicos e seus seguidores apoiaram o Romantismo cabalista e mágico, do qual nasceram depois a música de Wagner e a Gnose nazista de Hitler, enquanto do materialismo veio o comunismo de Lenin e de Stalin. Os nazistas e fascistas são filhos da mão direita de Hegel. Os comunistas o foram de sua mão esquerda.

Ontem ainda, esse movimento pendular já era notável. Roger Garaudy passou de mentor ideológico do PC francês ao misticismo afro e depois à mística gnóstica maometana. Muitos comunistas e marxistas passaram a freqüentar os terreiros de macumba. O comunista ateu e materialista Jorge Amado desempenha a função de Ogá num terreiro de candomblé, na Bahia, segundo informa Eco (Cfr. U. Eco, Viagem na Irrealidade Cotidiana, Nova Fronteira, Rio de Janeiro,8. ed., 1990, p. 125). O PC vai à Missa (Nova, evidentemente) e, na Nova Igreja, as Missas são transformadas em comícios do PT. Na cruz, se dependuram a foice e o martelo, enquanto João Paulo II, segundo Frei Leonardo Boff, utiliza categorias marxistas em suas encíclicas. (Cfr. Frei L. Boff, O Caminhar da Libertação no Debate Atual, Vozes, Petrópolis, 1985, p.76). Um ex-secretário do PC italiano, Berlinguer, punha seus filhos em colégios católicos, e frades propõem a "utilização do marxismo (materialismo histórico) pela teologia". (Frei L. Boff, O Caminhar da Igreja com os Oprimidos, Vozes, S. Paulo, 1988, p. 280). 

Hoje, com o ruir do bloco comunista do leste europeu, parece que se caminha para uma fusão do racionalismo com a mística gnóstica. Ciência e magia são nos apresentadas em um estranho abraço. Gorbachev foi ao Vaticano, sendo lá recebido efusivamente pelo Papa. Por sua vez, João Paulo II há tempos diz que vai a Cuba… Os comunistas adotam o livre mercado, e o Ocidente liberal vive de modo materialista. E consultando horóscopos. E proclamando que crê em duendes. Um ministro brasileiro que perdeu uma eleição por se proclamar ateu, e que ficou presidente, agora supersticiosamente usa uma fitinha do Senhor do Bonfim amarrada no pulso, para dar sorte e pede que se tenha pensamento positivo… 

O mundo parece tropeçar e cambalear, com alegria, em sofismas e mentiras, em direção a uma sociedade "aberta", na qual não haja valores objetivos nem verdades para as quais se deva viver e morrer, e onde, portanto, vale tudo, isto é, nada tem valor. Nem a vida. Nessa "Nova Era", nesse novo mundo, diz Eco "é certamente lícito perguntar o que Tomás de Aquino faria se vivesse hoje, mas será necessário responder que, em todo caso, não reescreveria a Suma Teológica. Ajustaria as contas com o marxismo, com a física relativista, com a lógica formal, com o existencialismo e com a fenomenologia. Não comentaria Aristóteles, e sim Marx e Freud. Depois, mudaria seu método argumentativo, que se tornaria um pouco menos harmônico e conciliante. E finalmente perceberia que não pode e não deve elaborar um sistema definitivo, fechado como uma arquitetura, mas uma espécie de sistema móvel, uma Suma com páginas substituíveis, porque em sua enciclopédia das ciências entraria a noção de provisoriedade histórica. Não sei lhes dizer se ainda continuaria cristão. Mas digamos que sim (…) Depois do que eu não queria estar em sua pele" (U. Eco, Viagem na irrealidade cotidiana, p. 342). [Ver: http://luzecalor.blogspot.com.br/2015/06/elogio-de-sao-tomas-de-aquino-umberto.html]

Eco escreveu isso antes do desmoronamento do império marxista… Sua "profecia" sobre o que faria São Tomás, pecou por "provisoriedade" excessiva… Hoje nem os marxistas querem saber do velho barbudo Marx e de sua "Bíblia de imbecilidade e de ódio", como dizia Claudel. 

Em suas obras O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, Eco trata exatamente desta problemática: a luta entre os dois inimigos do catolicismo, o racionalismo e o misticismo, entre o espiritualismo gnóstico-cabalista e o materialismo exaltador da razão. Seus dois romances vão das bibliotecas abaciais e dos antros esotéricos ao Museu da Ciência e da Técnica. Da Cabala, ao computador. Do candomblé ao laboratório de Física. E ele apresenta esses dois pólos como plenos de segredos. Ambos cheios de mistério. Ambos tão semelhantes como gêmeos antitéticos esotéricos. Ambos afirmando-se possuidores da verdade. Ambos criando labirintos em cujo centro há o vazio. Omite, porém, dizer que ambos se opõem à Igreja Católica e que contra ela se aliam. 

Em O Nome da Rosa, Édipo se reencontra com Tirésias Nos Labirintos de Eco. Édipo, o gêmeo antitético de Tirésias. Tão semelhantes e tão contrários como um slide visto por seus dois lados opostos. Tão semelhantes e contrários como tese e antítese, numa filosofia dialética. Como duas maneiras do homem errar. De sua luta resulta o incêndio do universo. Como se da luta entre o marxismo racionalista e o misticismo alógico, dos tempos em que Eco construiu sua abadia microcósmica, pudesse resultar um incêndio universal. Provavelmente atômico. Era o que muitos consideravam possível no auge da guerra fria. Quando o muro de Berlim estava ainda de pé, e Marx esperava, na estante, que um S. Tomás moderno – um "São Tomás" à la Boff – ouvindo algum eco sugestivo, viesse comentá-lo. Em Berlim, ruiu o muro. Marx envelheceu nas estantes e apodreceu nas almas que apodrecera. Frei Boff se libertou de sua batina e largou sua "Teologia". E não haverá o moderno São Tomás semiológico de Eco para comentar Marx.

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