Luz para a inteligência, Calor para a vontade

terça-feira, 3 de maio de 2016

Canção do ver (Manoel de Barros)


Fomos rever o poste. 
O mesmo poste de quando a gente brincava de pique 
e de esconder. 
Agora ele estava tão verdinho! 
O corpo recoberto de limo e borboletas. 
Eu quis filmar o abandono do poste. 
O seu estar parado. 
O seu não ter voz. 
O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com 
as mãos. 
Penso que a natureza o adotara em árvore. 
Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos de passarinhos 
que um dia teriam cantado entre as suas folhas. 
Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos. 
Mas o mato era mudo. 
Agora o poste se inclina para o chão - como alguém 
que procurasse o chão para repouso. 
Tivemos saudades de nós. 


(Manoel de Barros. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010)

Um comentário:

Lindas Frases de Amor disse...

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