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segunda-feira, 2 de maio de 2016

O filósofo Mário Ferreira dos Santos

Artigo de Dante Mantovani

mfs
Mário Ferreira dos Santos

Não comete exagero, muito menos imprecisão, quem reconhece a efetiva contribuição de um filósofo à cultura universal, e exatamente por essa razão é que nomear Mário Ferreira dos Santos como o maior filósofo brasileiro de todos os tempos não é exagero, muito menos imprecisão. 

Nascido em Tietê-SP, em 1907, filho de dono de uma companhia teatral, Mário Ferreira mudou-se ainda na infância para Pelotas (RS), onde por volta de 1925 estudou no Colégio Jesuíta, e posteriormente graduou-se em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de Porto Alegre, em 1930. Sua carreira intelectual teve início modesto, na década de 1940, tendo Mário atuado como tradutor, resenhista e divulgador cultural. Contudo, após sua mudança para São Paulo, em 1945, passou a dedicar-se cada vez mais à filosofia, e no ano de 1947 lança as bases de seu original método filosófico, denominado Filosofia Concreta, que constitui notável contribuição ao conhecimento filosófico universal.

A Filosofia Concreta parte de constatações universalmente aceitas e incontornáveis, e afirma-se como filosofia positiva, cujos pressupostos são enunciados com nitidez, segurança e otimismo, porque presta culto ao inabalável poder da inteligência humana. Mário Ferreira parte da simples constatação: “Algo há, e isto é o princípio de tudo”, para em seguida, com rigor lógico impecável, tecer uma série de sistematizações, deduções e classificações do conhecimento universal. O método da filosofia concreta foi concebido de modo a permitir averiguação dos sentidos mais profundos das ideias filosóficas de todas as épocas, escolas e tendências, ao mesmo tempo em que lhes complementa, aperfeiçoa e faz críticas demolidoras. Pode-se exemplificar como Mário Ferreira dos Santos aplica o método da concreção com o dito em uma de suas conferências: “O ser precede o nada, pois para se negar algo, é preciso que exista algo que possa ser negado”. Por esse curto fragmento, já é possível ter a dimensão do poder desse método filosófico, pois somente com essa dedução inicial, Mário analisa, sintetiza e refuta os pontos inválidos de todas as correntes de pensamento niilistas, ou seja, das filosofias negativas, como o pessimismo de Schopenhauer, as linhas influenciadas por Nietzsche e o existencialismo de Sartre, que tantas tragédias prefiguraram no séc.XX. 

O alcance do método filosófico de Mário Ferreira é, portanto, abissal, porque de fato penetra nas mais escondidas profundezas da história das ideias filosóficas e as obriga a um reexame incessante e impiedoso, para a sorte de quem pretende manter vivos e dinâmicos os conhecimentos humanos, seja pela prática da filosofia[1] ou de alguma outra ciência. 

Olavo de Carvalho, o maior filósofo brasileiro em atividade, é também grande admirador, divulgador e seguidor da obra de Mário Ferreira dos Santos, e traduz com acuidade a verdadeira dimensão dessa obra, que exige um melhoramento instantâneo de quem a pretende auscultar: 

“Os problemas que Mário enfrentou foram os mais altos e complexos da filosofia, mas, por isso mesmo, estão tão acima das cogitações banais da nossa intelectualidade, que esta não poderia defrontar-se com ele sem passar por uma metanóia, uma conversão do espírito, a descoberta de uma dimensão ignorada e infinita”.

Além da importância técnica, científica e filosófica de sua obra, o legado de Mário Ferreira foi também profundamente marcado por seu compromisso com a educação de seu povo: para isso fundou duas editoras: Logos e Matese, e vendia seus livros de porta em porta. Essa preocupação com a educação e a formação intelectual do povo brasileiro eram de tal monta, que concebeu para isso a monumental Enciclopédia das Ciências Filosóficas, publicada em nada menos que 45 volumes (!), que esclarece as bases filosóficas de todas as áreas do conhecimento. 

Outro aspecto notável e poderosíssimo da obra de Mário Ferreira dos Santos é sua capacidade de síntese, que exerce em simultâneo à capacidade de profetizar acontecimentos futuros, o que ocorre principalmente em suas análises sociológicas. Em texto de 1967, Mário sintetizou uma série de observações que fez a respeito da sociedade brasileira, analisando tendências e possibilidades latentes, cujos desdobramentos o permitiram formular prognóstico estarrecedor, que descreve perfeitamente a atual situação da mentalidade hegemônica que se pretende impor à sociedade brasileira.

No capítulo de nome VALORIZAÇÃO DO CRIMINOSO, que está em seu livro Invasão Vertical dos Bárbaros, (Ed. É realizações,2012), Mário Ferreira enuncia :
"Para o bárbaro, o criminoso é visualizado duplicemente: segundo o seu crime atinja a tribo ou alguém da tribo, ou se atinge quem não é da tribo ou se além disso é inimigo. No primeiro caso, há crime pleno; no segundo, atenua-se e, no terceiro, anula-se. O crime não é concebido enquanto em si mesmo, ou em relação à coletividade, mas apenas em relação ao objeto da lesão criminosa, a vítima. O mesmo ato lesivo pode ser considerado infame ou nobre, tudo dependendo de quem ou do que sofre."
(pg.85).

Mário Ferreira tem razão: no Brasil de hoje, só se considera crime os atos lesivos praticados contra os inimigos do regime hegemônico, pois os 70 mil homicídios/ano que amargamos já há décadas são mera estatística, ao passo que qualquer assassinato, por mais isolado que seja, de algum membro de “grupo minoritário” – leia-se, grupos protegidos pelo governo, em detrimento da maioria da população -, ganha contornos de escândalo inadmissível. No Brasil de hoje, se um presidiário é assassinado – não que isso deva ser encorajado, mas note-se a desproporcionalidade de reações - instantaneamente milhares de ONGs fazem barulho ensurdecedor no mundo todo, governos idem; mas se o mesmo crime ocorre contra um pai de família, nem uma única voz se levanta para clamar por justiça, exceto a da própria família.
O não reconhecimento da obra monumental de Mário Ferreira dos Santos é outro sintoma do atual estado de coisas no Brasil: um país ávido por barbárie não poderia reconhecer, sequer notar, a existência de seu mais civilizado, instruído e inteligente compatriota. Felizmente, a obra de Mário Ferreira dos Santos é maior do que o Brasil, e será sempre um manancial seguro e inesgotável para a reconstrução da cultura nacional.

Nota:


[1] Para Mário, a filosofia era considerada uma ciência, a mais rigorosa delas, por contar tão-somente com a inteligência do filósofo como instrumento, ao passo que outras ciências são repletas de instrumentos e técnicas auxiliares.


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