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terça-feira, 17 de maio de 2016

O impeachment e a "teoria da narrativa"


- Artigo de José Eduardo -
dm

Um dos expedientes mais abusados pelos revolucionários é o da "teoria da narrativa", que parte da ideia central de que, na história, o que vence não são os fatos, mas a narrativa dos mesmos.
Essa ideia é parcialmente verdadeira. Parcialmente porque a narrativa não é um princípio. Princípio são os fatos. Ou seja, construí-la a despeito destes é excogitar um artifício fantasioso, incapaz de convencer pessoas com sua faculdade cognitiva em ordem, e são justamente essas que dão solidez à história, mesmo que a não protagonizem.
Mas os revolucionários sabem disso. Mentem em coro para inibirem a apreensão dos fatos pela imposição coletiva de factóides. Nem eles o creem! Fingem e, do fingimento, passam para a repetição de refrões que, desconectados da realidade, passam a se tornar a única realidade que admitem. É a histeria em gestação. O verbal substitui o real, e a realidade torna-se um "em si" inacessível.
Agora, no Brasil, é exatamente este o processo da "narrativa do golpe". A realidade é simples:
- No Brasil, o impeachment é um julgamento simultaneamente político e jurídico.
- Do ponto de vista jurídico, a presidente cometeu um presumível crime de responsabilidade, por causa das pedaladas, que ela mesma confessou (os outros governos também o fizeram, mas em quantidade muitíssimo menor, o que não é juridicamente irrelevante -- pelo princípio da relevância, um roubo de milhares não se pode comparar a um roubo de milhões);
- Do ponto de vista político, porém, a presidente não tem mais credibilidade (o que os outros presidentes possuíam e, por isso, não foram impedidos).
Contudo, com as denúncias provenientes da própria esquerda, as investigações da Polícia Federal, os crimes constatados, as flagrantes obstruções da justiça, os favorecimentos ilícitos, os julgamentos, e tudo aliado a uma crise econômica sem precedentes, à queda livre do país, simplesmente não há clima de confiabilidade, nacional e internacional. Politicamente, a presidente não governava mais os fatos, era governada pelos mesmos. E, por causa disso, foi afastada.
Essa é a diferença básica. Apenas o eventual crime não basta; é necessário que haja ausência de respaldo político para que a presidente caia, e, numa democracia, esse respaldo emana também do povo.
Note-se, porém, a inversão da realidade. Nega-se que sejam crime as confessadas pedaladas, que são o mais patente de todos os fatos, e ignora-se a ausência absoluta de apoio político, como se esse houvesse. Dos 54 milhões que votaram, a quase totalidade se arrependeu, pois as promessas foram desmentidas pelos atos governamentais, e as mentiras de campanha foram desmascaradas pelos números.
A narrativa não pode vencer, nesse caso. Ela não é crível. Passará para a história como piada, e será afogada pelos julgamentos que virão, e as condenações, e as prisões.
De tudo isso, a ironia mais desconcertante está no fato de que nós, que não votamos em Temer (porque não votamos em Dilma), estamos torcendo para que faça um bom governo, pelo bem do país; e eles, que nele votaram, torcem por seu desgoverno, em favor do partido. De fato, essa é a prova cabal de que não tinham um projeto de nação, mas, sim, um projeto para devorá-la, projeto que começou a ser derrotado, mas que ainda dista de ser totalmente sepultado, pois para sê-lo necessita-se, antes, da cura da nação, que seja sarada da histeria e volte a gozar de bom senso, para que retorne definitivamente ao caminho da sabedoria.

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