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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Uerj luta para sobreviver à grave crise

Nas paredes do corredor do 7o andar do Pavilhão Reitor João Lyra Filho, a sede do câmpus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) no Maracanã, quadros com fotografias de grupos de formandos funcionam como um testemunho da relevância acadêmica da instituição. Ali, veem-se as turmas de estudantes de direito com seus professores e paraninfos, entre eles figuras de proa da Justiça brasileira, como os ministros do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux e Luís Roberto Barroso. Basta uma olhada ao redor para perceber, entretanto, que a situação atual do complexo universitário está muito distante da imponência exposta nos retratos. Salas vazias, corredores onde se acumulam sacos de lixo e banheiros decrépitos criam um cenário de desolação. A mesma situação se repete pelos doze andares divididos em cinco blocos, um panorama da mais grave crise da entidade em seis décadas de existência. Com os funcionários em greve, sem recursos para pagar prestadores de serviços e com uma dívida que supera 200 milhões de reais, a universidade parou de vez. Desde o início do ano, os 27 000 estudantes da graduação tiveram apenas um dia de aula — e, para eles, o risco de perder o semestre é uma ameaça real. E é em meio a esse clima de incerteza que cerca de 80 000 candidatos farão a primeira fase do vestibular para 2017, no domingo (12). “Mesmo que a greve acabasse hoje, não poderíamos receber os alunos. A manutenção está muito comprometida. Não há exagero em dizer que a Uerj respira por aparelhos”, compara o reitor Ruy Garcia Marques, no cargo desde janeiro.
Alberto Santoro
O físico Alberto Santoro, representante brasileiro no Cern de Genebra: limpeza no próprio laboratório e apoio financeiro aos estudantes que não receberam as bolsas (Foto: Anna Fischer)
A crise da segunda mais importante universidade pública do Rio é composta de dois problemas, originados na mesma raiz: a falta de dinheiro nos cofres do governo fluminense. Em outubro, o estado deixou de honrar os primeiros contratos com empresas que realizavam serviços como limpeza, manutenção e segurança dos câmpus. De lá para cá, a situação agravou-se. Em maio, a terceirizada de segurança foi trocada e, na quarta­feira (1o), os 500 funcionários da companhia responsável pela limpeza foram demitidos — uma nova licitação para contratar outra prestadora de serviços está em andamento. O Hospital Universitário Pedro Ernesto vem mantendo as portas abertas graças à verba mensal de 7 milhões de reais repassada pelo estado, de forma emergencial. No entanto, o valor de maio, vencido no último dia 27, não havia sido depositado até o fechamento desta edição, na quinta-feira 2.
CONTA BILIONÁRIA
O segundo componente da crise é a greve dos servidores e professores, deflagrada em 7 de março. Eles exigem a reposição das perdas de 2015 e o fim do parcelamento dos salários e do 13º, entre outros pontos. Apoiados pelos estudantes, juntaram-se a outros segmentos do funcionalismo público, como o dos professores da rede básica de ensino, cujas reivindicações são semelhantes. Em reunião recente com o governador em exercício do Rio, Francisco Dornelles, Garcia Marques expôs a situação dramática da universidade. Como resposta, ouviu que as mesmas mazelas atingem todas as outras áreas da administração estadual. “Ao longo dos últimos anos, o orçamento da Uerj aumentou consideravelmente, houve concursos. A crise é consequência direta dos problemas de arrecadação do estado”, justifica Gustavo Reis Ferreira, secretário estadual de Ciência e Tecnologia, responsável pelas universidades estaduais fluminenses. Uma reunião entre Ferreira e o secretário da Fazenda, Júlio Bueno, estava marcada para a quinta-feira 2, para discutir o assunto, mas os próprios envolvidos consideravam remota a possibilidade de chegar a uma solução rapidamente.
OS NÚMEROS DA UNIVERSIDADE
Celebrada por cursos como direito, ciências biológicas, geografia, história e ciências sociais, todos avaliados com nota máxima pelo GUIA DO ESTUDANTE, da Editora Abril, que também publica VEJA RIO, a Uerj está em sétimo lugar entre as instituições brasileiras no ranking Melhores Universidades Globais, compilado pela revista americana US News & World Report. De acordo com levantamento da Fundação Capes, do Ministério da Educação, sete de seus cursos de pós-graduação têm padrão internacional de excelência. Criada em 1950 como Universidade do Distrito Federal, ela foi rebatizada como Universidade do Estado da Guanabara uma década depois e, em 1975, finalmente recebeu o nome atual. Em 2003, tornou-se a pioneira no estado no estabelecimento de uma política de cotas — hoje, aproximadamente 10 000 de seus alunos se beneficiam desse mecanismo de ingresso, número que inclui estudantes da rede pública e filhos de agentes de segurança do estado mortos ou incapacitados. Para todos esses é concedida uma bolsa de permanência com a ajuda de custo mensal de 400 reais, que segue o mesmo sistema de remuneração dos servidores públicos. Como acontece com os salários do funcionalismo, ela tem sido paga com atraso.
Isabela Uerj
A estudante de biologia Isabela Wolff: à espera de definições sobre a volta às aulas (Foto: Felipe Fittipaldi)
As indefinições que cercam a retomada das aulas vem afetando drasticamente a rotina dos estudantes da Uerj. Sem prazo para o retorno das atividades, turmas não podem marcar sua formatura, alunos têm de alterar seus planos de estágio e, principalmente, ficam em casa à espera da volta, sem condição de assumir outros compromissos. Estudante do 5o período de biologia, Isabela Wolff, 22 anos, deixou um estágio num dos laboratórios da faculdade no fim do ano passado, na expectativa de concorrer a nova vaga no semestre seguinte. Sem perspectivas com a paralisação, atuou como voluntária em uma atividade de campo nos trabalhos na Ilha Grande, na Costa Verde fluminense,  onde fica uma das unidades da instituição. “Lá tudo estava funcionando precariamente. Motorista, serviço de limpeza e cozinheira eram pagos com recursos próprios do projeto”, relata a universitária, que tenta se atualizar em casa. “Como estudo em período integral, não posso assumir novos compromissos sem saber quando voltaremos às aulas”, lamenta. O aluno de engenharia cartográfica Thiago Menezes, 33 anos, contava com o término do curso no fim deste ano. Militar do Exército, ele planeja ingressar no corpo de oficiais depois da formatura. “Fiz muitos sacrifícios para me manter na faculdade. Hoje não posso imaginar não concluir o curso a tempo”, afirma.
Thiago Menezes
Thiago Menezes, do curso de engenharia cartográfica: receio de que a paralisação comprometa seus planos de concluir o curso ainda neste ano (Foto: Felipe Fittipaldi)
Em meio às muitas portas de laboratório fechadas com grades e à desolação que assola o complexo do Maracanã, encontram-se sinais de que a paixão pelo conhecimento e pela ciência vai além das limitações e dificuldades. O físico Alberto Santoro, chefe do laboratório de física de altas energias e líder da equipe brasileira no Colisor de Hádrons da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern), o maior laboratório de física de partículas do mundo, localizado em Genebra, tem mantido a limpeza de seu espaço de trabalho por conta própria. “Cheguei a ficar com problemas respiratórios por causa da sujeira”, relata. Santoro também costuma ajudar seus alunos bolsistas. Diante do atraso na liberação dos recursos pelo estado, o cientista adiantou o valor das bolsas aos jovens. “O abandono de uma universidade é a condenação de todo o futuro”, diz Santoro, titular na instituição desde 2001. O oceanógrafo David Zee, há 35 anos na universidade, vê com preocupação a situação dos alunos. Entre os que estão sob sua orientação há estudantes de pós-graduação e estagiários que vêm recebendo atenção do professor mesmo em meio à greve. “Protestar é legítimo, mas é necessário identificar o que pode ser feito para que as aulas voltem”, afirma Zee.
Com um orçamento anual de 1,3 bilhão de reais, a Uerj não é propriamente uma instituição pobre. A crise ocorreu em um momento de plena expansão — as verbas destinadas à universidade praticamente dobraram nos últimos oito anos. Os funcionários e professores tiveram o plano de cargos e salários reavaliado, e hoje a folha de pagamento se aproxima de 800 milhões de reais — outros 450 milhões são dedicados a despesas de custeio. A maior fonte de receita é o tesouro estadual, mas há iniciativas em parceria com órgãos externos como o Tribunal de Justiça, que utiliza os laboratórios de DNA e medicina forense da Uerj. A universidade conta ainda com um vasto patrimônio de imóveis — mais de 350 — doados em herança. Desses, 32% estão desocupados e 4%, inva­di­dos.“Estamos fazendo um amplo levantamento dos imóveis, mas é importante lembrar que, pela lei, não podemos usar recursos provenientes da venda desse patrimônio para pagamento de dívidas, apenas para investimentos”, explica o reitor. “A universidade tem muitas possibilidades de parcerias público-privadas, mas o momento é de tentar organizar a casa, resolver os problemas básicos para depois avançar.”

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E o que não faltam são dificuldades. Caso toda a crise fosse resolvida, seriam necessários pelo menos dez dias para reorganizar a administração e os serviços elementares nos câmpus. Diante desse cenário, na melhor das hipóteses, o primeiro semestre de 2017 começaria praticamente no meio do ano. E, mesmo com a volta às aulas, o calendário universitário ainda será paralisado novamente durante o período dos Jogos Olímpicos, já que, nessa época, as aulas serão suspensas devido à proximidade do prédio com o Estádio do Maracanã. Entretanto, até que o estado comece a liberar recursos, tudo não passa de conjecturas. O fato é que a reitoria já contabilizou uma queda de 15% nas inscrições no vestibular deste ano. “Não é um bom panorama. É inaceitável”, avalia Garcia Marques. Por tudo o que significa para o Rio, a Uerj não pode ser abandonada.

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