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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Deus e o Universo são a mesma coisa?



Em um dos episódios da série Cosmos, nosso saudoso Carl Sagan faz a seguinte indagação: por que apelar para a existência de um Criador a fim de explicar a existência do universo, se se pode simplesmente postular que o universo é eterno e existe sem causa alguma? Afinal, prossegue Sagan, se se assume que há um Deus que existe sem causa, então por que o universo não poderia existir sem causa?

A questão levantada por Carl Sagan é a mesma que muitas outras pessoas se colocam quando começam a raciocinar sobre o mistério da existência dos seres fora do nada. E é, certamente, uma objeção séria e convincente contra a tese da existência de Deus. Importa muito, portanto, considerá-la com atenção e responder a ela com honestidade intelectual.

Longos e minuciosos tratados filosóficos podem se escrever sobre o tema de Deus, demonstrando de modo estritamente racional a sua existência e os seus atributos principais, e eu o farei no futuro, mas por ora o que me é possível é apresentar alguns breves esboços e confiar o resto da reflexão à inteligência de meu leitor.

A duração temporal do universo não requer necessariamente um começo. Não há nenhum absurdo na hipótese de que o universo venha existindo desde sempre - quem sabe, em ciclos evolutivos de condensação da energia em matéria e posterior retorno de toda a matéria ao estado de pura energia, tudo recomeçando após. Talvez esse ciclo cósmico de formação-duração-desagregação venha se repetindo desde sempre, sendo a presente configuração do Cosmos apenas uma etapa entre o último 'big-bang' e o próximo fim de todas as coisas, quando todas as estrelas tiverem morrido e todos os átomos se desintegrado pela emissão de suas partículas fundamentais e pelo retorno destas a um estado puramente energético (isto é, puramente potencial, porque energia significa potência, capacidade de realizar trabalho, de causar alterações).

Não é a duração temporal do universo que demanda um Criador (visto que ela pode ser simplesmente cíclica, sem nenhum começo absoluto), mas sim o fato de o universo (isto é, o espaço-tempo e a matéria-energia, com todos os seus fenômenos) existir fora do nada

O contato de nossos sentidos e de nosso intelecto com o universo nos revela que cada fenômeno possui um princípio explicativo para ele - ou melhor, uma concatenação de princípios explicativos que constituem como que uma constelação de causas manifestando-se no tal fenômeno. Pense-se, por exemplo, em um pedaço de lenha queimando: nele a razão descobre a concretização de diversos princípios físicos, químicos, biológicos, matemáticos. A intelegibilidade das coisas reside justamente na possibilidade de descobrirmos e apreendermos (entendermos progressivamente) essa operação de princípios explicativos que subjazem ao fenômeno. O que está por trás de um arco-íris? Por que as maçãs caem? Do que é feito um rim? Como se constrói uma circunferência? Todas essas coisas são intelegíveis porque podem ser explicadas, porque podemos progredir no conhecimento meticuloso da constituição mesma delas. Desbravamos a floresta das causas cujo efeito são as propriedades caracterizadoras da coisa estudada. E, assim, numa folha seca que nos cai na mão podemos, na medida mesma em que temos ciência, enxergar uma pequena encarnação de grandes leis físicas, químicas, biológicas, matemáticas - leis cuja existência abstrata em nossa mente encontra o correlato da manifestação concreta nessas coisinhas ínfimas ou astronômicas que nos cercam. 

As qualidades e as quantidades, as posições, as durações, os movimentos e as relações das coisas, são, contudo, as manifestações derivadas de um fato mais fundamental ainda: elas existem, elas são, elas possuem ser. Qual o princípio explicativo do ser das coisas? O que faz com que elas sejam algo e não nada? Por que há seres ao invés de nada? As manifestações secundárias do ser são distinguiveis do ser em si mesmo considerado, e os princípios explicativos daquelas não explicam este, porque eles mesmos também precisam ter o seu ser explicado enquanto ser. Qual o princípio explicativo do ser em si mesmo considerado, do ser enquanto ser? 

Este pedaço de lenha que queima é a concretização da ação de muitas causas naturais. Mas nem ele ou elas, nem sua ação, precisavam existir. O que lhes dá o ser? Qual o princípio que está em ação nesse momento, fazendo com que essa coisa-fenômeno seja algo fora do nada? A existência real dessa coisa denuncia que há ali, em ação, um princípio fundamental capaz, por assim dizer, de furar a crosta do nada e fazer brotar o ser com suas manifestações, constituindo-se um substrato metafísico universal do qual procedem os fenômenos-coisas singulares - um Super-Ser (Supra-Ser, Além-Ser) gerando seres particulares, que são os seus efeitos, que são as participações do seu existir primordial. 

A esse princípio explicativo do próprio ser das coisas, a esse fundamento e substrato metafísico delas, damos, por convenção (por costume), o nome de "Deus".

Esse princípio distingue-se essencialmente das coisas por ele principiadas, visto que nele essência e existência se confundem (sua essência é existir), ao passo que tudo o mais só por ele existe e, se não fosse por ação dele, não existiria. Ele existe necessariamente; tudo o mais só existe contingentemente, acidentalmente, fortuitamente, dependentemente da existência dele. Ele é a única existência não causada por outra existência, enquanto que tudo o mais deve a ele o fato de existir. Não fomos simplesmente originados por ele há alguns bilhões de anos: na verdade, neste momento mesmo estamos nascendo dele, e tudo o que de qualquer modo neste momento exista, está saindo do seio dele, como de uma fonte a água brota. Não somos ele: somos coisas que ele faz, como que ideias que ele pensa neste mesmo momento, como raios de luz emitidos por uma estrela. Somos, tanto nós as coisas vivas e pensantes, quanto as coisas vivas e não pensantes e as coisas nem vivas, fundamentalmente diferentes desse princípio absoluto do qual emanamos, mas nosso ser guarda com ele uma relação ontológica tão estreita, que é como se um artista fizesse seus quadros com o próprio sangue - o artista, na analogia, é ele, e nós os quadros. Deus não é "ser" como nós somos seres: ele é o princípio que causa o ser enquanto ser. Um ser (ou um conjunto de seres, como o universo) que tivesse existido desde sempre, desde sempre estaria sendo causado por esse princípio supremo do ser. Deus não fez as coisas saírem do nada um dia, no passado; ele o está fazendo, agora mesmo, e nessa existência dos seres fora do nada é que descobrimos a revelação natural de sua existência real.

Em um primeiro momento, nossa razão descobre apenas que necessariamente há um princípio explicativo fundamental para o ser das coisas enquanto ser. Num segundo momento, porém, analisando o ser das coisas, a razão descobre que as coisas são compostas de ato e potência, e que são as variações nessa composição de ato e potência que determinam a essência mesma da coisa - ou seja, as coisas são atualizações delimitadas por potencialidades, e nesse jogo 'ato versus potência' é que reside a configuração causal da coisa (isto é, a redutibilidade de suas caracterizações particulares à ação de causas mais gerais). Logo, as coisas são causadas porque são feitas de ato e potência, e algo, para existir sem causa, precisaria ser só ato, puro ato, sem potência alguma, visto que a potência é um limite - um 'poder-ser' que ainda não é e talvez nunca seja. Donde se conclui que, para Deus existir sem ser causado (e ele tem de existir sem ser causado, senão não seria a causa primeira e o supremo princípio do ser), ele tem de ser Ato Puro. Mas ser Ato Puro é não possuir potência alguma, por já se possuir em ato a realização perfeita de todas as potencialidades por meio das quais um ser pode crescer em perfeição ontológica: mais e melhor substância, mais e melhor conhecimento, mais e melhor poder (=vontade eficaz), mais e melhor virtudes, mais e melhor tudo o que seja mais perfeito que o seu oposto. Todas as perfeições, em grau máximo, deve possuir o Ato Puro - e possui-las em grau máximo é possui-las de um modo muito diferente do que vemos realizado nas criaturas. Ora, "personalidade" (isto é, o ser-pessoa, o ser sede intrinsecamente operante de inteligência e vontade livre) é uma perfeição ontologicamente melhor que o seu oposto (a impessoalidade), porque significa um modo de ser com mais ato e menos potência que a impessoalidade: logo, o Ato Puro deve possuir personalidade em grau supremo, sendo inclusive eminentemente mais 'pessoa' do que qualquer um de nós, embora essa supereminência de sua personalidade o torne uma 'pessoa' muito diferente de nós, que só possuimos a perfeição da personalidade muito limitadamente. 

E assim é que a razão nos conduz à descoberta, talvez chocante, de que o princípio explicativo último do ser das coisas é uma pessoa. Mas uma pessoa que não é 'pessoa' do mesmo modo como nós somos 'pessoas'. Assim como ele também não é 'ser' no mesmo sentido em que nós somos 'seres'. Para ser, de fato, o princípio explicativo último do ser das coisas, ele tem de ser Ato Puro. E, como tal, tem de possuir a perfeição de todos os atributos ontologicamente melhores (isto é, com mais ato) que seus opostos - deve ser, pois, espiritual, onisciente, onipotente, onipresente, livre, sumamente bom, justo, belo e feliz. O modo como essas perfeições se realizam nele é, naturalmente, um mistério para nós, dado que não temos nenhuma experiência com o grau realmente máximo e supereminente delas.

Deus e o universo são a mesma coisa? Nem de muito longe. Deus é um princípio; o universo é coisa e conjunto de coisas. Deus é O princípio que origina o ser das coisas; o universo é a coleção das coisas que Deus origina na ordem ontológica (isto é, do ser enquanto ser). Deus existe sem causa; o universo é uma coletânea toda formada por coisas causadas. Deus existe necessariamente; o universo só existe na dependência de Deus, tendo uma existência como que 'de empréstimo'. Deus é Ato Puro; o universo é todo um misto de ato e potência. Por ser Ato Puro, Deus é infinitamente perfeito em todas as perfeições; o universo (e todos e cada um de seus seres) só possui as perfeições que Deus livremente, e por suas próprias razões, lhe quis conceder (e as razões de uma inteligência infinita podem ser muito difíceis de compreender para seres de saber limitado como somos). 

Todas essas colocações, termino dizendo, são perfeitamente passíveis de muito melhor e maior desenvolvimento. Prometo aos leitores escrever esses desenvolvimentos no futuro, mas desde já não pude resistir a oferecer-lhes essas breves ponderações, rogando-lhes que tenham a bondade de completar com o trabalho da própria inteligência o que faltou em extensão e aprimoramento a este texto.

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Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2016, RJ - Brasil

Rodrigo Antônio,
discípulo de Aristóteles e Tomás de Aquino.


[* a menção que fiz, no início do artigo, a um questionamento de Carl Sagan, refere-se ao que este diz entre os minutos 34 e 36 do episódio "O limiar da eternidade", da série Cosmos]

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