Luz para a inteligência, Calor para a vontade

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Quatro gerações de nostalgia

- Texto de Mário Chainho -
dwb
O fenómeno da nostalgia é interessante de abordar não só para ver como as pessoas se relacionam com o tempo e com a sua duração de vida mas também porque nos permite identificar claramente algumas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas. Podemos dizer que a nostalgia consiste numa retirada simbólica do tempo, e o quando e o como as pessoas fazem isso dá-nos muitas informações.
Na geração dos meus avôs a nostalgia surgia quando as pessoas se aproximavam dos 80 anos e se apercebiam de uma degradação física irreversível. Então, lembravam com saudade os tempos de mocidade em que corriam nos campos, em que iam a pé por todo o lado, nas serras, planícies ou cidades. Quase que não podemos falar de nostalgia neste caso mas de um lamento por "tempos que não voltam mais".
Quando passamos para a geração dos meus pais parece que a nostalgia continua a ser o mesmo tipo de recordação de mocidade, mas algo já se alterou. Desde logo, nostalgia surge mais cedo, antes dos 60 ou mesmo 50 anos de idade. E já não é motivada pela constatação de uma declínio físico natural mas da percepção de que os tempos mudaram e eles já não são se sentem adequados ao novo mundo. Então, começam a usar a expressão "no meu tempo" e recordam os "bons velhos tempos", em que a vida era mais simples e as relações humanas eram mais puras, ainda que com algum romantismo à mistura.
Quando passamos para a minha geração já entramos dentro do campo patológico. Supostamente, seríamos aqueles que iriam acabar de vez com a nostalgia. Fomos ensinados a odiar os nossos pais e tudo o que eles representavam porque eles estavam apegados ao passado. Nós, com os nossos diplomas universitários na mão, iríamos olhar para o futuro, construir um país moderno com os nossos maravilhosos empregos. Seríamos bem-sucedidos, viajados, de mente arejada, cheios de estilo e assim por diante. Na realidade, fomos ultrapassados pelos "tempos" ainda mais depressa que os nossos pais e o nosso futuro já foi enterrado, embora poucos se tenham dado conta disso. Somos escravos modernos sem tempo para nada. Então, surge uma nostalgia peculiar, ainda antes dos 40 anos de idade, com traços irónicos e caricatos. Começamos a apreciar aquelas músicas que ouvíamos na infância e na adolescência e de que nunca gostamos, mas que agora nos reconfortam. Recordamos as séries de TV antigas e até mesmo as personagens de telenovelas, mas tudo é feito aparentemente em tom de brincadeira. Na realidade, é um escape desesperado para os novos deserdados pelo tempo.
Quando chegamos às gerações mais novas, abaixo de trinta anos, já estamos no domínio do bizarro. Pessoas com menos de 30 ou até menos de 20 anos já se mostram nostálgicas. É impressionante como pessoas que deviam estar a viver uma vida na plenitude das suas capacidades tenham necessidade de idealizar recordações. Trata-se de uma geração que é quase totalmente fruto de engenharia social, sendo programados desde a concepção, depois têm todos os cuidados médicos sufocantes, a pré-escola, a pseudo-escola, a engenharia comportamental e assim por diante. Esta gente não tem direito nem a um passado e nem a um futuro, apenas vivem como ratos de laboratório. Mas o ser humano tem sempre a capacidade de se tentar libertar das suas amarras (ou de as apertar ainda mais). Muitos encontraram essa libertação nos jogos de computador, na animação japonesa ou nos seus heróis musicais fabricados em laboratório, e o que eles recordam com nostalgia são coisas como esta. Visto de fora tudo isto parece fazer parte da alienação dos jovens (e faz, em certa medida), mas é preciso ter noção de que se déssemos a umjovem moderno a liberdade de um camponês medieval, ele iria morrer de terror.
(Fonte: MSM)

Nenhum comentário: