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sábado, 17 de setembro de 2016

A imaginação

- Texto de Nilson José Machado -

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I – A lagartixa e o jacaré
Há um quadro de Magritte que representa a capacidade de extrapolar a partir de um contexto: o artista é capaz de ver um ovo e pintar uma ave.
Há um poema de Blake que nos fala de “ver o mundo em um grão de areia e todo o céu em uma flor selvagem, em ter o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora”. Também aqui, as capacidades de articulação micro/macro, de combinação análise/síntese são especialmente valorizadas.
Tanto a relação contexto/extrapolação quanto a capacidade de uma visão sintética, de uma cartografia simbólica do real, exigem, no entanto, os cuidados do tempero, ou de um grão de sal.
Uma lagartixa imóvel em um muro nos faz lembrar de Blake e Magritte. A imaginação pode nos levar do pequeno réptil ao enorme jacaré, tal como uma miniatura metálica nos faz pensar no automóvel real. Mas temer a lagartixa como se teme um jacaré não é virtude da imaginação; pode ser simples paranóia.
Falar em público e viajar de avião, às vezes, são lagartixas disfarçadas de jacarés.
II – Ilusão e futuro
Ter ilusões é querer jogar o jogo da vida. As ilusões inspiram e alimentam nossos projetos e nos lançam para frente. Ter ilusões é sonhar com metas, que se descolam dos fatos e tangenciam a ficção; mas é também projetar ações para animá-las.
Sem ilusões, não casamos, não temos filhos, nem nos tornamos professores: a docência pressupõe a fundamental ilusão pelo outro. A consciência dos riscos, inerentes a todos os projetos, deve apenas temperar a expectativa da realização, nunca minar a ilusão. O espaço do risco é o mesmo da realização pessoal, da criação.
O futuro é tecido pelos projetos que arquitetamos e eles são tributários de nossas ilusões: sem ilusões, não existe o futuro. A fecundidade da ilusão, no entanto, é sutil e delicada. Quando um evento crucial nos faz entrar em crise ou duvidar do sentido da vida, sustentamo-nos nos projetos que já realizamos e não nas ilusões que um dia já tivemos. Não vivemos sem ilusões, mas não vivemos de ilusões. Viver é sonhar, projetar, realizar.
III – Ilusão e saudade
A vida é como uma narrativa em permanente construção. Ela se realiza nos projetos que delineamos no presente, mas se alimenta continuamente do passado e do futuro. Alertados de que o modo de ser do ser humano é o pretender ser, é o projetar, é a futurição, saudamos Marías e Ortega e semeamos no presente as sementes do futuro. Conscientes de que o presente não se sustenta sem a memória, sem a história, voltamo-nos constantemente para trás, como condição de possibilidade de um projeto consistente: o presente é o futuro do passado.
No passado, no entanto, nem tudo nos agrada. Em auto-tela de retro-projeção, buscamos redesenhá-lo. Em nome do encantamento do presente, supervalorizamos ocorrências circunstanciais e episódicas. Para expressar tal cumplicidade radical entre o vivido e o imaginado, a língua portuguesa dispõe de uma palavra especial: saudade. Uma sincera tolerância com o passado é a mãe de todas as saudades. Pouco importa se a versão é ilusória: a saudade é uma ilusão do passado.
IV – Os factos e os fictos
O modo de ser do ser humano é pretender ser, como bem caracterizou Julián Marías. Quem não está se lançando em busca de coisa alguma, quem não tem qualquer projeto (pro jactum = jato para frente) já faleceu, mesmo que não saiba disso.
Habitamos o espaço entre a realidade dos fatos e nossas fantasias mais diletas. Facto é o particípio passado do verbo latino facere (fazer). Os fatos já estão feitos. Não podemos ignorá-los, mas reduzir a vida a eles é limitar nossas perspectivas.
O vivido alimenta-se do imaginado, do que fazemos de conta, dos fictos. Sonhos, ilusões, fantasias, utopias, ficções são alimentos para nossos projetos. Ter ilusões é querer continuar jogando o jogo da vida. Iludere vem de ludus, jogo. Não vivemos de ilusões, mas não sobrevivemos sem elas. Sem ilusão não se faz projeto. Os fictos que idealizamos prefiguram os factos que vivenciamos.
A ficção é fundamental para a vida. Em qualquer idade, sem a simbiose realidade/ficção, a vida humana descamba em mero fatalismo.

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