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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A Volkswagen e os softwares fraudulentos

- Artigo de Bruce Shneier
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Durante os seis últimos anos, a Volkswagen fraudou testes de emissão de poluentes dos seus carros movidos a diesel. Os computadores dos veículos conseguiam detectar quando estavam sob teste e alteravam temporariamente o comportamento dos motores para que parecessem muito menos poluentes do que realmente eram. Quando não estavam sob análise, vomitavam 40 vezes mais poluentes. O CEO da Volkswagen renunciou e a empresa enfrentará um recall caro, multas enormes e coisa pior.
Fraudes de testes regulatórios têm um longo histórico na América corporativa. Isso acontece regularmenteno controle de emissões dos automóveis e em outras situações. O que é importante no caso VW é que a fraude estava pré-programada no algoritmo que controlava as emissões dos carros.
Computadores permitem às pessoas fraudar de modo inédito. Como a fraude fica encapsulada no software, as ações maliciosas podem ocorrer muito longe do teste em si. Como o software é “inteligente” de um modo que outros objetos não são, a fraude pode ser mais sútil e mais difícil de detectar.
Nós já tivemos exemplos de fabricantes de smartphones fraudando testes de benchmark de processadores: detectavam quando estavam sob análise e aumentavam artificialmente o desempenho. Logo veremos isso em outros ramos da indústria. (NT: benchmark é um ponto de referência em relação ao qual computadores ou programas podem ser medidos em testes de comparação de desempenho, confiabilidade etc.)
A Internet das Coisas está chegando. Muitas indústrias estão se movimentando para colocar computadores em seus dispositivos e isso dará aos fabricantes novas oportunidades para praticarem fraudes. Lâmpadas poderão burlar os padrões regulatórios parecendo ter mais eficiência energética do que realmente têm. Sensores de temperatura poderão enganar os compradores fazendo-os acreditar que a comida está acondicionada em uma temperatura mais segura do que a real. Urnas eletrônicas poderão parecer funcionar perfeitamente – exceto durante a primeira terça-feira de novembro quando imperceptivelmente transferirão uma pequena porcentagem de votos de um candidato para outro. (NT: a primeira terça-feria de novembro é a data das eleições nacionais americanas – Congresso a cada 2 anos e Presidente a cada 4 anos.)
A minha preocupação é que alguns executivos não interpretarão o episódio da VW como um aviso envolvendo penas justas para um grande erro mas, ao contrário, o verão como uma demonstração de que você pode conseguir fazer uma coisa dessas por seis anos.
E eles trapacearão com mais esperteza. Para todos os envolvidos na ousadia, a fraude da VW era óbvia caso as pessoas soubessem procurá-la. Mais inteligente teria sido fazer a fraude parecer um acidente. A qualidade geral dos softwares é tão ruim que produtos são entregues com milhares de erros de programação.
Muitos deles não afetam as operações normais, motivo pelo qual o software da sua máquina geralmente funciona relativamente bem. Alguns desses erros, entretanto, afetam as operações, e por isso o software ocasionalmente falha e requer atualizações constantes. Ao fazer um software fraudulento parecer conter um erro de programação, a fraude parece um acidente. E, infelizmente, este tipo de fraude que se pode negar é mais comum do que se pensa.
Especialistas em segurança computacional acreditam que as agências de inteligência têm feito este tipo de coisa por anos, com o consentimento dos desenvolvedores de software e de maneira secreta.
Esse problema não será resolvido por meio da segurança computacional como normalmente a entendemos. A segurança computacional convencional é projetada para impedir a invasão de computadores e redes por hackers. A analogia com carros seria uma segurança de software que impedisse que o dono pudesse adaptar o motor do seu veículo para correr mais, gerando, por outro lado, uma maior emissão de poluentes. O que precisamos combater é uma ameaça bem diferente: um comportamento condenável programado na fase de projeto.
Nós já sabemos como proteger a nós mesmos contra o comportamento condenável das corporações. Ronald Reagan uma vez disse “confie, mas verifique” falando sobre a dissimulação da União Soviética nos tratados nucleares. Precisamos ter a capacidade de verificar o software que controla as nossas vidas.
A verificação de software tem duas partes: transparência e supervisão. Transparência significa disponibilizar o código-fonte para análise. A necessidade disso é óbvia; é muito mais fácil esconder um software fraudulento se o fabricante puder esconder o código.
Mas a transparência não diminui a fraude nem melhora a qualidade do software magicamente, como qualquer pessoa que usa software de código aberto sabe. É apenas o primeiro passo. O código precisa ser analisado. E, como software é tão complicado, essa análise não pode ficar limitada a um teste governamental de vez em quando. Precisamos também de uma análise privada.
Foram pesquisadores de laboratórios privados nos Estados Unidos e na Alemanha que enquadraram a Volkswagen. Assim, transparência não significa tornar o código disponível apenas para o governo e seus representantes; transparência significa tornar o código disponível para todos.
Transparência e supervisão estão sob ameaça no mundo do software. As empresas normalmente lutam contra tornar o seu código público e tentam calar os pesquisadores de segurança que encontram problemas, citando a natureza proprietária do software. (NT: software proprietário é aquele em que o código-fonte não é disponibilizado.) É uma queixa válida, mas o interesse público de exatidão e segurança precisa se sobrepor aos interesses dos negócios.
Cada vez mais, software proprietário está sendo usado em aplicações críticas: urnas eletrônicas, dispositivos médicos, bafômetros, distribuição de energia elétrica, sistemas que decidem se alguém pode ou não embarcar num avião. Estamos cedendo mais controle das nossas vidas a softwares e algoritmos. Transparência é a única forma de verificar se eles não estão nos enganando.
Não faltam executivos dispostos a mentir e a fraudar em sua caminhada em direção aos lucros. Vimos outro exemplo semana passada: Stewart Parnell, ex-CEO da agora extinta Peanut Corporation of America, foi condenado a 28 anos de prisão por comercializar deliberadamente produtos contamidados por salmonella. Pode parecer excessivo, mas nove pessoas morreram e muitos mais adoeceram devido à sua fraude.
Software somente tornará uma má conduta como essa mais fácil de perpretar e mais difícil de provar. Menos gente precisará saber sobre a conspiração. Isso pode ser feito de antemão, longe do local ou da ocasião do teste. E, se o software permanecer escondido por um tempo longo o suficiente, facilmente pode ser o caso de que ninguém na companhia se lembre de que ele está lá.
Precisamos de uma melhor verificação dos softwares que controlam as nossas vidas e isso significa mais – e mais pública – transparência.

Este ensaio foi publicado originalmente na CNN.com
Tradução feita a partir do post Volkswagen and Cheating Software.


Bruce Schneier é especialista em tecnologia internacionalmente renomado, chamado de “guru da segurança” pelo The Economist. É autor de 13 livros – incluindo Data and Goliath: The Hidden Battles to Collect Your Data and Control Your World – e centenas de artigos, ensaios e dissertações acadêmicas. Prestou declarações ao Congresso, é presença frequente em programas de rádio e tv, tem servido em diversos comitês governamentais e é citado regularmente na imprensa. A sua newsletter Crypto-Gram e o seu blog Schneier on Security são lidos por mais de 250 mil pessoas. É fellow do Berkman Center for Internet and Society na Harward Law School, do Open Technology Institute da New America Foundation, membro da Electronic Frontier Foundation, do Electronic Privacy Information Center e é Chief Technology Officer da Resilient Systems, Inc.



Tradução: Ricardo R Hashimoto

(Fonte: MSM)

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