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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O milagre menor do corvo de Poe

O conto-ensaio "O milagre menor do corvo de Poe" foi apresentado em 2006 no X Congresso Internacional da Abralic - Associação Internacional de Literatura Comparada, em um simpósio sobre as relações entre a filosofia e a literatura organizado por Gustavo Bernardo.

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O MILAGRE MENOR DO CORVO DE POE
Gustavo Bernardo


● Por favor, sentem-se nos seus bancos. Decerto se conhecem...
— Não tive o prazer...
— Não tive o prazer...
— Never!
● Perdão, esquecia-me que vêm de lugares e momentos bem diferentes. Permitam-me apresentá-los. Formamos um círculo, como veem. À minha esquerda, encontra-se o ilustre escritor americano Edgar Allan Poe, que respondeu com parte da sua exclamação mais conhecida. Senhor Poe, os demais o conhecem de nome, embora naturalmente o senhor não possa conhecê-los, por ser mais velho do que eles. À minha direita, encontra-se o mais jovem entre os senhores, o igualmente ilustre escritor argentino Jorge Luís Borges – eu falei “borres”, mas, por favor, imaginem que estão lendo “borges”. O senhor Borges conhece Poe, mas não é conhecido nem por ele, nem pelo nosso terceiro convidado, sentado bem na minha frente, entre os dois senhores. Trata-se do, tão ilustre quanto, escritor brasileiro Joaquim Maria Machado de Assis; ele decerto conheceu o americano, mas também não poderia ter conhecido o argentino.
— Permita-me...
● Sim, senhor Machado?
— O senhor nos apresentou, mas se esqueceu de se apresentar, pois não? Aproveito para lhe perguntar por que não está sentado em bancos de madeira, como nós outros, mas sim nesta espécie de pufe preto.
● Oh, é verdade. Os senhores decerto me reconhecem, mas o ilustre leitor talvez não tenha ainda ligado o nome à letra. Podem me chamar de Narrador, vosso criado. Como me cabe desenrolar os acontecimentos e distribuir as falas pelos personagens, digo, pelos escritores, não tenho tempo para ficar parado e me sentar.
— Permita-me...
● Sim, senhor Borges?
— O senhor quer sugerir com isso que hoje nós é que somos os personagens? É vero que, em alguns dos meus contos, eu me divertia emprestando meu nome para alguns personagens, mas era apenas um empréstimo. Eu conheço bem o nome dos meus companheiros, sei que eles foram dos melhores escritores do seu tempo e das suas nações – percebo agora, fascinado, que estamos aqui sentados, ou sentadas, as Três Américas, inglesa, espanhola e portuguesa. No entanto, como nos tornamos personagens? E: como sabemos que agora somos não mais do que personagens?
● A obra dos senhores, principalmente dos dois sul-americanos, foi dedicada a demonstrar que todos nós não somos mais do que personagens. Os senhores não se tornaram personagens, os senhores continuam personagens. Como há algum tempo, digamos, se passaram daquela para esta dimensão, a qual muitos preferimos supor melhor, na verdade o personagem que cada um incorporou, no seu tempo, tem justamente se intensificado, precisamente, porque não se encontram mais lá.
— Onde é que é “lá”? Que história é esta de não sermos mais do que personagens? E por que entendo esta língua que falam? Pior, por que eu falo esta língua que falam?
● “Lá”, senhor Poe, é o tempo em que viviam, cada um no seu país, cada um no seu tempo – o senhor, decerto, como sabemos, com um pouco mais de dificuldade e de sofrimento do que os demais. “Aqui”, em contraponto, é esta página bidimensional em que neste momento nos encontramos todos a conversar. Caso a nossa conversa seja representada em um palco, através dos atores conquistaremos a impressão de profundidade, mas, na verdade, continuaremos ainda e sempre personagens. A literatura de que viveram simboliza e encarna a autonomia da linguagem em relação à realidade. Mas este é um assunto para o senhor Machado de Assis. Antes de lhe passar a palavra, porém, digo que a língua que falamos não é nem inglês, nem espanhol, nem português, mas simplesmente a língua de quem nos lê. Como Narrador, não sei ao certo em que língua fomos escritos, tampouco em que língua estamos sendo lidos.
— Antes de ouvir o senhor Machado de Assis, pleased to meet you, ahá, consegui falar inglês, quero dizer que não interessam a ninguém as minhas conhecidas dificuldades pessoais. Quero dizer também que a realidade é dura, é amarga, enfim, é uma shit, mas isso não significa que alguém possa se libertar dela assim, com a leviandade de uma frase. Quero dizer, por fim, que só estaríamos conversando na língua ideal, em que todos entendem todos, se estivéssemos em trio, sob a batuta do Maestro Narrador, tocando cada um de nós um instrumento, por exemplo um piano, uma viola ou um violoncelo.
● É verdade que a língua ideal, como a chama, é a da música, na medida em que todos conseguem se comunicar através da música, suspendendo-se não apenas as declarações pletóricas e as sentenças insuficientes, como também os mal-entendidos e os ânimos preconcebidos. Todavia, não disse que falávamos esta ou outra língua ideal, mas sim que não sabia, não poderia saber, que língua é esta que falamos para assim nos entendermos todos. Quanto à realidade da realidade, o Senhor Machado talvez possa tecer uma réplica melhor do que eu o poderia.
— Nem todos os meus personagens sou eu, como diria Flaubert, principalmente nem todos os meus narradores sou eu, mas as coisas que tem falado uma das minhas criaturas, porque sei que as continua falando, me agradam mais do que as demais. Suspeito que, à exceção do senhor Poe, a tenham conhecido: trata-se do ilustre Conselheiro Aires e o seu oportuno tédio à controvérsia. Aires é um cético, como sabem, e por isso mesmo pode ser um Conselheiro. Como também sabem, o melhor conselheiro é aquele que não dá nem empresta conselhos, apenas faz a pessoa que o solicita ouvir a si mesma. Eu bem que gostaria de ser cético quando me tornasse uma pessoa mais sábia, mas infelizmente, ou felizmente, como sabê-lo, morri antes de alcançar esse estágio. Quem me dera... Sou, no máximo, alguém que pintou este ou aquele quadro com tintas ora pessimistas, ora amarguradas. Com esta longa introdução, quis preparar-me para me declarar incapaz de tecer qualquer réplica, pior ou melhor do que a de outrem, porque continuo, neste mundo, a tentar me inspirar no personagem que deixei no outro mundo. Entretanto, apesar desta minha incapacidade, e também apesar deste meu pessimismo, gostaria de reafirmar o que já disse algures: a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada.
— Tenho de concordar, meu amigo. É difícil para um argentino concordar com um brasileiro mas, quando se trata de Machado de Assis, suspendam-se todas as certezas e todos os preconceitos. O realismo realmente, se me permite o pleonasmo, não presta para nada. A realidade, por sua vez, é não somente boa, mas absolutamente inverossímil, o que nos garante o espanto cotidiano, condição sem a qual não há filosofia nem literatura. Agora, por exemplo: espanto-me novamente, o que não tem qualquer cabimento, se deveria estar, nada mais, nada menos, do que morto! Lembro-me como se fosse ontem – talvez tenha sido ontem – de quando, pouco antes de morrer, escrevi um elogio à sombra: dirigia-se tanto à sombra que me acompanhava há anos, na cegueira, quanto à sombra que se avizinhava. Sentia que chegava a meu centro, à minha álgebra e à minha chave, enfim, a meu espelho. Sentia que breve saberia quem eu era. Foi uma ilusão doce: continuo, como antes, sem saber quem eu sou, de onde vim, para onde vou, o que afinal de contas estou fazendo aqui.
● Este é o momento oportuno para que eu principie a explicar porque me trouxeram a esta sala, ou a esta página, para que por minha vez eu os trouxesse. Gostaria que conversássemos mais um pouco, não a conversa fiada dos que pensam que estão vivos, mas sim aquela conversa fluida dos que sabem que não sabem se estão vivos ou mortos, como nós. Uma conversa assim pode nos aproximar daquela língua ideal, daquela língua que se articula à igual distância do silêncio e da música. Nosso assunto é, sim, a sombra. Ou, melhor dizendo: a eternidade. Lembro que cada um dos senhores escreveu um texto emblemático, entre tantos, sobre a eternidade. Senhor Poe, recorda-se do seu poema sobre a eternidade?
— Nevermore!
● Esse mesmo, era assim que ele terminava: “nunca mais!”. Chamava-se “O Corvo” ou, no original, “The Raven”, estou certo? Pode nos falar um pouco da sua concepção de eternidade que, por sua vez, contém, se não cometo nenhum erro, a sua concepção de poesia?
— A poesia. All right, a poesia são “os meus umbrais”, como chamou o português ao traduzir “my chamber doors”. Elas se abrem, sim, para a eternidade, mas a mesma eternidade não se abre necessariamente para nós. O poema d’O Corvo continua vivo e sendo lido em várias línguas, pelo visto, mas e eu? Como meus colegas, também me encontro na eternidade, mas o que encontro nela? Nada. Principalmente, ninguém. Em especial, não a encontro, mas apenas, como antes, ao nome dela: Lenora... O tradutor português, ele mesmo um poeta, tomou a liberdade, como se fizesse parte daquelas hostes celestiais, de também apagar o nome dela da sua tradução. No entanto, soube que um brasileiro, antes, não a apagara na sua versão – os senhores sabem quem terá sido?
— Creio que se refere a mim, que tive a honra de traduzir o seu poema.
— Ah, foi o senhor! É de fato enorme o prazer por encontrá-lo neste limbo metafórico, virtual, ou lá que nome o nosso Narrador lhe queira atribuir. Vejam bem: se não esqueci antes a minha amada, perdida, eu supunha, entre as hostes celestiais, depois da minha passagem para este lugar-nenhum em que nos encontramos todos, dela muito mais me lembro. No entanto, onde ela se encontra, que não a encontro? Ambos nos perdemos nessa mesma eternidade, ambos nos escondemos num desvão do labirinto. Não há caminho de volta, não há sequer caminho entre nós. É isto. A eternidade é um labirinto sem qualquer possibilidade de saída ou de reencontro.
— E eu que me considerava amargo!...
● Senhor Machado, os melhores remédios também são amargos, como sabem, se não digo nenhuma novidade. Todavia, temos uma primeira definição de “eternidade”: a eternidade como um labirinto. Senhor Borges, não é esse um território que bem conheceu?
— A definição do senhor Poe é, como compete a um poeta, menos uma definição do que uma comparação, quase uma metáfora. O labirinto que bem conheci foi o de Creta, embora ele tenha provocado o desconhecimento de mim mesmo. Lembro-me, com clareza, que no centro do labirinto de Creta residia o Minotauro. Enquanto tantos representaram o Minotauro como um homem fortíssimo, mas com cabeça de touro, Dante o imaginara como um outro tipo de ser dionisíaco, devidamente enlouquecido: como um touro com cabeça de homem. De toda forma, na rede de pedra do animal-homem tantas e tantas gerações se perderam. Nesta mesma rede de pedra, neste mesmo labirinto em que se perderam gerações, em que Edgar Allan Poe e sua amada se perderam quando supunham se achar, eu e Maria Kodama, naquela manhã, também nos perdemos. Eu disse, algures, que continuávamos perdidos no tempo, esse outro labirinto. Creio que foi ingenuidade; trata-se do mesmo labirinto, da mesma eternidade, da mesma rede de pedra.
● A definição parece que se refina: a eternidade agora é um labirinto sem qualquer possibilidade de saída ou de reencontro entre os amantes de uma vida. O que lhe parece, senhor Machado?
— O que pareceria a Carolina? Era o que eu gostaria de saber, mas nunca o soube. Talvez tivesse a vantagem de nunca tê-lo esperado. Quando a minha Carolina, a leitora não dos meus livros mas da minha alma, o meu modelo íntimo, enfim, se foi, fiquei face a face comigo mesmo, com as minhas dores, a minha doença, tão eterna quanto tudo o mais. Ao menos, como um de meus personagens menos dignos, porém, mais humanos, não deixamos para o mundo, para a humanidade, o legado habitual da nossa miséria. Quero dizer, não tivemos filhos. De algum modo promulgamos, sem o saber claramente, uma espécie de lei preventiva do ventre livre: meus filhos não nasceram escravos, simplesmente porque nem nasceram.
● Impressionante, meu caro escritor. Isso quer dizer que a eternidade...
— ... que a eternidade existe, sim, mas como uma espécie de cerca-viva sobre o território do vazio, da ausência, da perda. A eternidade é um nome, sim; no meu caso, o nome de Carolina.
— Mas ilustre, isso parece dor em estado bruto, sem qualquer mediação, sem qualquer humor. É vero que nós, os argentinos, não o lemos muito, embora devêssemos, mas do pouco que lemos reconhecemos um forte senso de humor, quase poderia dizer, um forte senso de “humour”, à inglesa mesmo. Ele lhe faltou, na hora difícil do encontro consigo mesmo?
— Poderia dizer que sim, se de fato tivesse me encontrado com alguém, em particular comigo mesmo. A sua pergunta é muito bonita, mas, em verdade vos digo, meus amigos, que nesse território nada se encontra, tudo se perde – de resto, nada muito diferente de quando escrevíamos e nos considerávamos vivos. Mas pelo menos hoje, sentado nesse banco inverossímil que parece um travessão, posso dizer que o humor nunca me faltou. Todavia, sempre soube, também, que detrás da máscara careteira e risonha do humor, se esconde a face terrível da tragédia cotidiana. No meu tempo, precisava ajudar o humor a esconder de toda a gente essa face, se quisesse sobreviver como escritor, ou até como cidadão brasileiro. Mas aqui?... P’ra quê?
● Senhor Machado de Assis, recorda-se de alguma história em que tenha falado sobre a eternidade?
— Creio que de todas, e não foram poucas. Um dos aspectos negativos da eternidade é que, nela, nada se esquece. A mais conhecida, decerto, reside na brincadeira que fiz ao escrever as memórias póstumas de um tal de Brás Cubas, liberando-o, pela condição de falecido que agora partilhamos, para falar mal de todos os que com ele conviveram e, principalmente, de si mesmo. Mas não é bem a que mais gosto. Neste momento, prefiro citar um pequeno conto, chamado “Trio em Lá Menor”.
● Fale-nos sobre ele, por favor.
— Deixe-me tentar me lembrar, faz tanto tempo... Veja só, lembro-me de tudo, como eu dizia. Bem, vamos lá: três personagens, cujos nomes começam por “M”, a saber, Maria, Maciel e Miranda, formam um triângulo amoroso, tenso como todos os triângulos amorosos. O conflito entre eles, porém, se resolve por meio do meu melhor anti-clímax. Maria, à semelhança de Flora, outra personagem minha e amiga do Aires, gosta de algum aspecto de ambos, mas não consegue gostar inteiramente de nenhum dos dois. Maciel, o mais jovem, é o que chega mais próximo de conquistá-la, ao salvar um menino de ser atropelado por uma carroça, tal qual Rubião, outra de minhas criações. Mas, ao visitá-la e à sua avó depois, mostra-se tão ocupado com a vida alheia que a aura de masculinidade da manhã se desfaz à noite. Maria, na verdade Maria Regina, Maria Rainha, faz um esforço de imaginação para voltar a recobrir o rapaz com o seu fascínio anterior, mas a imaginação da moça não se mostra muito forte...
● O senhor se expressou corretamente, referindo-se a seu “melhor anti-clímax”? Não estava querendo falar do seu melhor clímax?
— Embora não frequente os vivos há algum tempo, as palavras não me esqueceram. Eu quis dizer exatamente o que disse, meu caro Narrador – como, aliás, sói acontecer entre escritores. As interpretações já serão outra história... Mas, permita-me continuar. Quando Maciel se despede, aparece, é claro, Miranda. Miranda tem o dobro da idade do outro, logo, nem que quisesse, poderia ser tão viril quanto ele. Por isso, com a verve mais fina e mais cínica que pode, diminui-lhe o gesto sugerindo que ele talvez tenha salvo da morte certa um futuro desalmado que, algum dia, lhe meteria uma faca na barriga – ou pior, que meteria uma faca na barriga das senhoras deslumbradas ali presentes.
● O senhor escreveu isto, assim tão cruamente?!?
— Bem, na verdade, não, no que respeita à barriga das senhoras – mas que o pensei, pensei, na esperança de algum leitor do futuro lê-lo entre as linhas. Até por isso Maria, que chama Miranda de “mau”, outro “M” a esboçar um novo triângulo, deslumbra-se novamente, mas agora com o espírito de Miranda. Só que Miranda é velho, portanto pobre de corpo, apesar de rico de espírito, enquanto Maciel, rico de corpo, se revelara bem fraquinho no espírito. Novamente, Maria recorre à imaginação para recobrir Miranda com uma embalagem melhor.
● Ela o consegue?
— Tanto quanto com Maciel, isto é: não. Com o tempo, percebe-se enamorada de um terceiro homem, o homem que fabricara, na sua cabeça, tentando complementar as qualidades de um e de outro. Esse homem se lhe afigura perfeito, exceto por um pequeno detalhe: ele não existe de modo algum, nem mesmo como personagem. Com o tempo as suas paixões, todavia incompletas, arrefecem completamente, tornando-se completas tão-somente porque igualam-se ambas ao nada, ao vazio.
● A sua história termina assim? E a eternidade, como fica?
— A história não termina bem assim. Há mais um momento, em que fiz surgir do abismo, do modo menos verossímil possível, era preciso que o fosse, uma voz dizendo para Maria, sem que ela entendesse coisa alguma: “a tua pena é oscilar por toda a eternidade entre dois astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: lá, lá, lá...”. Homessa, lembro-me bem desse final.
● Então, a eternidade...
— ... é, permitam-me interrompê-los, como o infinito ou a divindade, não mais nem menos do que incompletude, falta ou ausência, como quiser. Em termos literários, a eternidade não pode ser mais do que reticências, elas mesmas intermináveis. Do mesmo jeito que o infinito, a eternidade não tem sentido; se tivessem sentido, poderíamos limitar à uma e ao outro, o que é absurdo. Logo, me parecem que esses dois termos designam, como bem mostrou o senhor Machado de Assis, o tamanho da falta de tudo que sentimos e que não podemos preencher.
● Senhor Borges. Como entrou na conversa, presumo que queira nos contar uma das suas histórias sobre a eternidade.
— Como sabe, são muitas. Esse é um dos meus temas preferidos, que, à semelhança de alguns outros, repiso à exaustão. Como o meu colega brasileiro, vou e volto em alguns temas e algumas histórias, procurando, como Maria, o amor ou a verdade que não há – nem esta, nem aquele. Sin embargo, como se diria na minha língua, existe a procura que, ao fim e ao cabo, justifica tudo. Creio que o mostrei em um dos meus contos preferidos, “Milagre Secreto”.
● Pode contá-lo para nós?
— Eu o lembro, sim. Devido à minha cegueira, não podia reler meus livros preferidos, ou as histórias que escrevi. Então, por vários anos, dediquei-me a reler na memória, e também a reescrever, de memória. Qualquer semelhança com o meu personagem, como observarão, não é mera coincidência. Pensei nele como um escritor também, mas um escritor tcheco. Ele se chamava, se não me falha a memória, Jaromir Hadlik. Era autor de um ensaio intitulado, muito a propósito, “Defesa da Eternidade”, e de uma tragédia em versos intitulada “Os Inimigos”. A tragédia, porém, ele não a conseguia completar, e sua obsessão era terminá-la.
● Trata-se portanto de, como dizem os críticos literários contemporâneos, de uma meta-história, de uma metaficção.
— Eles dizem isso? Se é o caso, todas as minhas histórias são formas de metaficção. Suspeito, aliás, que toda a literatura, em todos os tempos, faça variações em torno da metaficção. São deveras interessantes os críticos e os seus termos maravilhosos: reinventam a roda diariamente.
● Senti alguma ironia no seu comentário?
— Quem, eu? Jamais. O mestre da ironia é o meu amigo brasileiro, de minha parte nunca saí dos meus labirintos. Falando no território do diabo, esta história não deixa de ser outro labirinto. Meu amigo Hadlik era considerado um intelectual judeu e vivia em Praga justamente no ano de 1939. Naturalmente, foi preso pela Gestapo e condenado ao fuzilamento. Não o fiz condenado ao campo de concentração porque não teria rendimento ficcional: a ficção suporta muito mal o horror em tamanha dimensão. Na noite que antecede à execução da sentença, o escritor, com aquela ironia tão cara aos judeus como a Machado de Assis, faz um pedido a Deus: “se de algum modo existo, se não sou uma das tuas repetições e erratas, existo como autor de Os Inimigos. Para levar a bom termo este drama, que pode justificar-me e justificar-Te, requeiro mais um ano. Outorga-me esses dias, Tu de Quem são os séculos e o tempo”. Disse isso mesmo, lembro-me bem. Reparem, meus amigos, que o meu pequeno personagem não questionou a existência de Deus, mas “apenas” a existência de si mesmo. Ora, como somos todos cartesianos, quando se questiona o “eu” se questiona o “cogito”, e quando se questiona o “cogito” nada mais resta – nem Deus!
● Só que, como o conto precisa de uma boa reviravolta, Deus aparece e lhe concede o ano que ele lhe pediu, certo?
— Meu caro Narrador. Comove-me a sua fé. Bem, ela é na verdade condição da sua condição de narrador. No entanto, Deus ainda não aparece, calma, até porque a condição da literatura, por seu turno, é a protelação. Como precisei adiar a resposta do Divino, adormeci o pequeno escritor e o fiz sonhar que procurava Deus em uma biblioteca. O bibliotecário, cego, é claro, respondeu-lhe que Deus estaria contido inteiro em uma das letras, de uma das páginas, de um dos quatrocentos mil tomos do Clementinum. E que ele mesmo procurara essa letra, ou seja, procurara Deus, mas no caminho ficara cego. No entanto, entra um leitor no recinto para devolver um Atlas, dizendo-o inútil. Hadlik pega-o primeiro e folheando-o toca, não em um mapa, mas numa letra minúscula. É quando escuta, não mais que de repente, uma estranha voz a lhe dizer que o tempo do seu trabalho lhe é outorgado.
● Eu não disse?
— Calma. Tratava-se de um sonho, como falei. O personagem acorda na mesma cela de antes. O guarda vem pegá-lo, na hora marcada para o fuzilamento, e o leva para o pátio. O céu, nublado, mandou a primeira gota de chuva no seu rosto. Uma fração de segundo antes da detonação fatal, entretanto, o universo físico para.
● Como assim?!?
— Viu o que disse sobre a protelação? O senhor me emprestou a interrupção de que eu precisava para segurar o suspense mais um instante. Agora, demos tempo ao leitor, ou ao espectador, de figurar em sua mente a imagem da imobilidade do universo físico: no pátio, os soldados apontam as armas mas não atiram, aliás não se mexem, nem piscam. Uma abelha projeta sobre a ardósia a sua sombra fixa. A gota de chuva no rosto de Hadlik não escorre. Imóvel, aos poucos compreende o que lhe foi concedido: um ano para reescrever e concluir na mente, sem suporte de papel, a sua tragédia sobre Os Inimigos.
● E ele o consegue?
— Sim. Passado um ano, no segundo exato em que o nosso poeta encontra o último adjetivo, o universo físico se move, a gota de chuva no seu rosto escorre, os soldados do pelotão apertam os seus gatilhos. 
● E a tragédia?!?
— Ela se perde junto com os tiros. Ninguém a terá lido, muito menos eu ou os leitores do meu conto, ainda menos Deus. Ele a escreveu para ninguém. Deu-se o milagre, sim; mas um milagre forçosamente secreto.
● Mas, então, tudo foi inútil! O que isso, afinal, quer dizer?
— O meu caro Narrador não atinou? Não percebeu o significado último da eternidade?
● A inutilidade?!?
— Não. Agora sou eu quem deve interrompê-los. O significado último da eternidade não é a inutilidade, mas sim a revolta. Inútil, sim, mas revolta. Este é o sentido, senão da eternidade, certamente da humanidade.
— Perfeito, Mestre Poe!
● Senhor Poe. Pelo visto, os escritores se uniram contra este pobre Narrador, como aliás de praxe. O que foi, combinaram lá fora?
— Sequer nos conhecíamos, senhor Narrador. Aliás, sequer vivemos no mesmo tempo, ou no mesmo espaço, nem mesmo, é mister ressaltar, no mesmo inferno! A revolta, a revolta contra Deus ou o Diabo, tanto faz, enfim, contra a própria eternidade, é esta revolta que nos une aqui e agora, neste não-lugar e neste não-tempo que o senhor teve o desplante de inventar.
● Senhor Poe, deve saber que sou tão inventado quanto este aposento, quanto estes travessões flutuando no ar, presos a lugar nenhum, enfim, quanto cada um dos senhores mesmo.
— Whatever. De toda forma continuo, mesmo morto há tanto tempo, me revoltando também contra a opinião fácil de toda a gente, contra o clichê e a arrogância da ignorância, contra a ânsia da interpretação a qualquer custo. O corvo, por exemplo. Quer saber o que significa o meu corvo?
● Era o que eu ia lhe perguntar precisamente agora.
— Veja só como adivinhei; não foi nada difícil. Mas não vou lhe responder. Não vou lhe dizer que o corvo, the raven!, é uma metáfora da própria revolta. Seu silêncio é o silêncio desejado por todo escritor que se preza. Escrevemos tanto, my dear, com o único e exclusivo objetivo de falarmos uma única palavra, aquela palavra que o personagem do nosso amigo argentino achou no meio de um mapa e dentro de um Atlas. Nosso Graal, não necessariamente santo, é esta palavra: uma vez que a pronunciemos, podemos nos calar para sempre.
● Creio que o senhor acabou respondendo ao...
— ... ilusão sua! Ilusão sua. Porque o corvo também não é a revolta. Em poesia, não se trata disto ou daquilo, do certo ou do errado, do bem ou do mal, do verossímil ou do inverossímil, mas sempre disto e daquilo, sempre do certo e do errado, sempre do bem e do mal, sempre do verossímil tanto quanto do inverossímil! Assim sendo, o corvo também não é a revolta, porque o corvo fala e repete, na língua do pássaro e na minha, uma única palavra: nevermore! Escutou? Nevermore!, meu amigo abstrato.
● Que quer dizer...
— ... não vou dizer! Não vou dizer que nevermore é o nome da falta que ela me fazia então, não vou lhe dizer que nevermore é o nome da falta absurdamente cósmica que ela me faz precisamente agora, neste não-dia ou não-noite, tanto faz como tanto fez, ah, que nevermore é o nome, enfim, do fim, ou seja, da eternidade ela mesma. 
● Eu ia apenas traduzir a expressão para a língua que ora falamos, ou que ora nos fala, dizendo, aos nossos prováveis cinco ou seis leitores, ou cinco ou seis espectadores, como diria, a propósito, o senhor Machado de Assis, que “nevermore” quer dizer “nunca mais”.
— Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais a verei, Lenora. Nunca mais me verei: Edgar-Allan-Poe... Há mais de século, decerto, a procuro em cada canto em que haja uma placa desbotada e desgastada indicando ou o inferno, ou o paraíso, ou mesmo o purgatório, sem achar nem este, nem aquele, nem aquele outro, nem muito menos a minha amada Lenora! Permaneço caminhando no mesmo caminho circular de barro, ou então subindo e descendo a montanha de Sísifo, senão com a pedra, com a palavra nas costas, esta mesma palavra que não acho, que não consigo ler, que não consigo escrever, porque não tenho olhos nas costas!
● ... mas, o que é isto?!? O que entra assim, negrume absoluto, pela janela imprevista do aposento, e me pousa nas costas sem que eu possa vê-lo por mais que me torça e me vire, o que é isto, me digam, por favor, me digam, senhores poetas, senhores escritores, senhores vates das três Américas!
— Não adivinha?
— Não imagina?
— Não tem idéia?
● Não... Sim.
— O corvo de Poe.
— O corvo de Poe.
— O meu corvo.

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